"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor". João Guimarães Rosa

16 junho 2005

CARTAS DE CLARICE

Belo Horizonte, 13 de julho de 1941

Hellô, bem

Está tudo direito, agora. Antes de partir falei com aquela pessoa por causa de quem eu me encontrei com V. de noite. Não aludi à carta principal e só falei das outras que vieram com belíssimas flores, morangos e outras coisas.

Houve um momento em que me disse: S está tonto porque V. vai embora. Menti: “certamente entra aí um pouco de álcool. E, nesse caso, eu sempre desculpo”. Não olhei para ele, não quis ver a reação. Voltei para casa triste com a meia perturbação que eu notara. Mas eu me tinha prometido ser outra, não é? Fiquei defronte do espelho e fiz uma cara belíssima: uma mistura de Nicolau Couro de Cobra com a tua Amélia (Vi tua Amélia no trem; e para o meu desapontamento... ela me sorriu amavelmente. Quem sabe? Se você também lhe tivesse dado uma oportunidade...)

Eu pretendia chorar na viagem, porque fico sempre com saudade de mim. Mas felizmente sou um bom animal sadio e dormi muito bem, obrigada. “Deus” me chama a si, quando dele preciso.

Quanto a teu fantasma, procuro-o inutilmente pela cidade. As mulheres daqui são quase todas morenas, baixinhas, de cabelo liso e ar morno. Aliás, quase que só há homens na rua. Elas, parece, se recolhem em casa e cumprem seu dever, dando ao mundo uma dúzia de filhos por ano. As pessoas daqui me olham como se eu tivesse vindo direto do Jardim Zoológico. Concordo inteiramente. Para não chamar atenção, estou usando cachinhos na testa e uma voz doce como nem Julieta conheceu.

Que mais? Eu tinha vontade de escrever outras coisas. Mas você diria: ela está querendo ser “genial”.

Encontrei uma turma de colegas de Faculdade em excursão universitária. Meu exílio se tornará mais suave, espero. Sabe Lúcio, toda a efervescência que eu causei só veio me dar uma vontade enorme de provar a mim e aos outros que eu sou mais do que uma mulher. Eu sei que você não crê. Mas eu também não acreditava, julgando o que tenho feito até hoje. É que eu não sou senão um estado potencial, sentindo que há em mim água fresca, mas sem descobrir onde é a sua fonte.

O.K. Basta de tolices. Tudo isso é muito engraçado. Só que eu não esperava rir da vida. Como boa eslava eu era uma jovem séria, disposta a chorar pela humanidade... (Estou rindo.) Um grande abraço da
Clarice

P.S. – Hotel Imperador. Pça. Rio Branco, 744-748 quarto n.° 302 – Belo Horizonte

P.S. – Esta carta você não precisa “rasgar”...

Carta escrita a Lúcio Cardoso
CORRESPONDÊNCIAS CLARICE LISPECTOR –Organização de Tereza Monteiro

12 junho 2005

OS CAMINHOS DO APRENDER A VIVER

Uma das características do ser humano é a sua capacidade de fazer projeções de atitudes que venham a tomar. No entanto, a aprendizagem da vida se dá por comportamentos vividos, experimentados. Uma boa metáfora sobre esta aprendizagem é a frase de um filosofo: “a coruja de Minerva só levanta vôo ao entardecer.”

Não há dúvida, que a inteligência humana colabora com a dura tarefa de viver. Quando se levanta hipóteses possíveis para um comportamento a ser praticado, nos é permitido com isso fazer escolhas que consideramos, logicamente, mais acertadas naquele momento. Evidente, que está capacidade de projeção se torna restrita, a medida que ela não leva em conta as diversas variáveis da experiência humana, quando em contato com o ambiente em que foi praticado. Porém, é neste momento que se apresenta uma outra qualidade do homem: a flexibilidade. Quando ele vê que a escolha feita por ele, não foi a melhor, quase que instantaneamente ao ato praticado, faz ajustes necessários para uma melhor satisfação dos seus anseios. Logo, mesmo que de maneira precária, a projeção é uma aliada no aprendizado do viver, quando aliada a experiência.

No entanto, para aprender a viver, não existe melhor maneira do que se lançar na vida. É mergulhar e seguir o seu curso. Por mais que especulamos sobre a vida, nunca que a especulação nos permitirá saber, quando o rio da vida passará por um terreno acidentado ou por um precipício e neste caso a queda é inevitável, mas o seu curso, para muitos, costuma ser longo, passando por planícies, vales, se encontrando com outros rios até chegar ao oceano, destino de todos os rios. Só que é com a experiência adquirida neste percurso, é que se aprende a viver.
Portanto, a vida não é para ser pensada. O pensamento mata a vida. Ela deve ser saboreada, como se saboreia uma comida, nem sempre ela agradará o nosso paladar. Mas, paciência, aprender a viver é aprender que a vida tem diversos sabores, a maior parte dela é mesmo azeda e amarga. É possível sonhar que ela pode ser doce, mas é um desejo, muitas vezes abortado pelas circunstâncias da existência. Viver dá trabalho, nos desgasta e nos faz sofrer.

10 junho 2005

"UM PARADOXO ADORÁVEL E DESALENTADOR"

“(...) no coração de toda realidade existe uma pergunta, e não uma resposta. Quando examinamos os recessos mais profundos da matéria ou a fronteira mais remota do universo, vemos, finalmente, o nosso próprio rosto perplexo nos devolvendo o olhar.”
JOHN HORGAN, AUTOR DO LIVRO: O FIM DA CIÊNCIA – EM REVISTA USP N.° 59 – ARTIGO: FRONTEIRAS E DESAFIOS DO CONHECIMENTO - PÁG. 208-209

21 maio 2005

COMO VIVE E MORRE UM PASSARINHO – JOHANN SEBASTIAN BACH - PARTE I

Ali permanecia ele, um velho baixo e corpulento, vestindo calças e sapatos afivelados, usando a enorme peruca cinzenta que ela lhe havia dado em um natal, sorrindo alegremente para ela, com esse sorriso vago dos cegos, quando ela disse: - Sim, meu João está certo – tentando controlar o tremor de seus lábios.

Normalmente ela chamava-o de Johann Sebastian, mas pensava nele como “meu Johann”, e às vezes escapava... – Está certo – repetiu ela com um aceno trêmulo de sua cabeça coberta por uma touca. – Vá e toque no órgão. Será bom para você.

Era loucura, ela o sabia, deixá-lo ir tocar o órgão a esta hora da noite. Isto faria com que toda a escola acordasse, e que Herr Weinlick, o censor, descesse e este certamente mandaria um relatório para as Suas Majestades do conselho municipal, e estas diriam que o seu Johann ficara maluco tanto quanto cego e que elas não poderiam conservar tal professor num coral de uma escola municipal, e o despediriam. E para onde iriam eles, agora que o médico lhes havia levado todas as economias? Bom e doce Jesus, o que lhes aconteceria com ele cego e ela demasiado velha para encontrar trabalho, com Gottfried doente da cabeça, o inverno ainda não acabado e Leipzig ainda cheia de neve?

O pânico dilatou-lhe os olhos azuis e murchos no pergaminho miúdo que era sua face toda enrugada; mesmo assim ela continuava a cuidar dele, que tremia da cabeça aos pés, acenando teimosamente. Ela não sabia o que lhes aconteceria, mas não podia suportar mais aquilo, observando-o sentado ao pé do fogo, com suas mãos enormes e magras sobre os joelhos, olhando para as chamas que não podia ver, contando as horas da noite pelas rondas do guarda-noturno. Ela sabia que ele temia o que aconteceria pela manhã e que desejava orar e pedir a Deus que lhe desse forças, e compor música era seu método de orar. E por isso, mesmo que Sua Majestade, o prefeito em pessoa, os mandasse para a cadeia, ela deixaria que ele tocasse o órgão esta noite e dar-lhe-ia esta última alegria.

- Sim, meu Johann, vá e toque quanto quiser.

Ela acentuou as últimas palavras com a bravura incerta de um pobre que desafia o inevitável.

- Apenas não toque muito alto – pediu ela docemente, achegando-se a ele. E então, numa contradição desatenta, disse:

- E não demore muito.

- Não o farei.

Seus lábios continuaram movendo-se, mas nenhum som saía dos mesmos. Ele apenas aconchegou-a ao seu peito com se quisesse que ela ouvisse seu agradecimento diretamente pela batidas de seu coração.

A porta do quarto abriu-se e Gottfried entrou.
Com uma dor cruciante e repentina ela reparou que sua cabeleira ruiva estava despenteada e que ele havia esquecido de calçar uma das meias. Este quadro reabriu-lhe uma ferida no peito, por um momento esquecida. Ele fazia essas coisas, sabia ela, porque estava doente da cabeça e o médico havia dito que ele nunca sararia, apesar de ele ser um rapaz alto e simpático e de às vezes sentar-se ao clavicórdio e inventar músicas tão belas que mesmo o seu Johann, que era muito severo no que se referia à musica, ouvia com lágrimas nos olhos.

- Papá, posso ir também? – perguntou o idiota, tão excitado como uma criança. – Tomarei conta dos foles.

Johann Sebastian Bach consentiu.

- Sim, meu filho – disse ele gentilmente. – Oraremos juntos.

Da porta, Anna Magdalena observou-os enquanto avançavam incertamente pelo corredor mal iluminado abaixo, o cego apoiando-se no braço do filho. Então ela fechou a porta e permaneceu sem se mover, com o rosto escondido nas mãos. Finalmente, agora ela podia chorar e somente isso era o que ela podia fazer. Não perguntava mais e nem tentava compreender por que Deus lhes enviava tanto sofrimento. Não eram eles boas pessoas? Johann não havia pedido a vista a Seu serviço, compondo música à luz de velas glorificando Seu nome e cantando Sua glória? Todas aquelas cantatas, aqueles motetes, aquela colossal Missa para a qual ela havia riscado os pentagramas e aquela Paixão, que era a obra que ele mais amava, haviam sido todas escritas par Ele. Será que Ele não as ouvira?

Ela retirou as mãos do rosto e apurou o ouvido, escutando. Ele havia começado a tocar e a composição era a Paixão. Ela sabia que ela tocaria aquilo porque esta era a historia de Nosso Salvador Jesus e de como Ele havia sido espancado, de como cuspiram n’Ele, de com Lhe ataram uma coroa de espinhos na cabeça e fizeram com que Ele carregasse Sua cruz ao Calvário, onde eram crucificados os assassinos, e Ele, o próprio Filho de Deus, houvera suportado tudo isso sem uma palavra sequer... E agora, o seu Johann tocava aquela musica que havia escrito sobre aquelas coisas terríveis, para que pela manhã pudesse se lembrar do que Jesus havia sofrido por ele e então, ele também tentaria igualar-se a Ele...

Ela ouviu um rumor de passos ligeiros do lado de fora e virou-se para a porta. Sim, era Herr Weinlick... e tão furioso vinha que gaguejava consigo mesmo, e com tal pressa (mais corria do que andava), nem havia abotoado os sapatos.

- Que houve com ele? Gritou ele de longe. – Será que não sabe que já passa da meia-noite?... Terá ficado louco?... E quem lhe deu autorização de tocar no órgão grande? Apenas o organista tem o direito de toca-lo e ele é apenas professor do coro...

“É melhor deixa-lo falar por um pouco”, pensou ela, observando o censor aproximou-se, “deixemo-lo cansar-se um pouco...” Ela havia aprendido muito, vivendo todos aqueles anos com um homem. No velhos tempos, o seu Johann ficava às vezes tão furioso que atirava a cabeleira através da sal e a única coisa a fazer era ficar quieta e deixa-lo arengar e após algum tempo ele se acalmava.

- Um professor do coral, ouviu?, isso é tudo que ele é.

Herr Weinlick estava agora a apenas alguns passos dela e ofegava pesadamente.

- Enviarei um relatório e...

Faltou-lhe o ar e ele teve que parar.

- Entre, Herr Weinlick, e sente-se – disse ela suavemente.

- Não vim para sentar-me – gaguejou ele, acompanhado-a para dentro. – Vim para dizer-lhe...

Calmamente ela fechou a porta atrás dele. A musica já não soava tão alto.

- Sente-se nesta cadeira – disse ela com a tranqüila autoridade de uma senhora em sua própria casa. – E descanse um pouco.

Ela sentou-se perto dele à enorme mesa de jantar. Ele não era realmente um homem mesquinho, pensou ela, olhando-o. Apenas pobre e amedrontado. Igual a ela, igual ao seu Johann, igual a todos que não tinham nem um centavo seu. Era o medo que fazia com que as pessoas se tornassem cruéis...

- O senhor não deveria andar correndo por aí numa noite como esta sem um sobretudo.

- Não se incomode com isso – resmungou ele, reavendo sua cólera juntamente com o fôlego.

- Mas o senhor ficará doente. Olhe para si, todo esbaforido e perspirando...

- Estou muito bem. Apenas aviso-a...

Ela já estava se levantando.

- Vou lhe arranjar um pouco de sopa quente.

- Não quero sopa nenhuma – interrompeu ele, vendo-a debruçar-se sobre a terrina que jazia em cima do fogão. – Vim apenas para...

E o que fará o senhor quando ficar doente? – interrompeu ela, enquanto despejava calmamente sopa em um prato. – Terá que permanecer na cama e não poderá vigiar mais os garotos, e talvez o reitor escreva para o conselho dizendo que terá de arranjar um novo censor...

Ela voltou par a mesa e colocou o prato de sopa na frente dele.

- Coma isso, Far-lhe-á bem.

Ruidosamente ele engoliu algumas colheradas.

- Digo-lhe que desta vez ele foi muito longe e eu serei obrigado a...

- Coma – disse ela com um tom de finalidade.

Durante um momento ele comeu em silêncio, apressadamente, sem ousar parar. Ela debruçou-se em sua direção.

- Não foi culpa dele – disse ela apontando para si mesma. – Eu disse-lhe que fosse tocar.

- A senhora?

Ele estava mais surpreso do que zangado.

- Por que fez isso?

- Ele precisava disso. Sabe – agora ela falava como se ele fosse um amigo – o medido virá pela manhã.

- Para a operação?

A agressividade havia decaído nele. Instintivamente ele abaixou a voz.

- A que horas?

- Às sete. Mas seus auxiliares chegarão primeiro... – sua voz estrangulou-se num soluço – para prepara-lo.

Durante um instante o censor não falou. Ele já havia presenciado os horrores de uma operação cirúrgica, e o simples relembrar fazia-o estremecer.

- Sinto muito, - disse ele, colocando a mão sobre as dela – creia-me.

Ele forçou os ouvidos e percebeu que a musica havia parado.

- Devo ir – disse, levantando-se – e fazer com que os rapazes voltem para a cama. – Ao chegar à porta virou-se. – A senhora tem sorte de que o reitor durma na ala traseira. Seja como for ele é um pouco surdo.

- Então o senhor não escreverá para o conselho? – perguntou ela docemente.

- Ele sacudiu a cabeça.

- Mas nunca mais o deixe fazer isso.

- Ele não o fará – disse ela, mas estas palavras não o alcançaram, pois que ele já corria pelo corredor abaixo na direção do dormitório dos rapazes.

Durante um momento ela permaneceu sentada à mesa, olhando o vácuo à sua frente. Ele havia cumprido sua promessa, não havia tocado muito tempo... tinha voltado logo.

Levantou-se e esperou no umbral da porta. Logo os viu aproximarem-se, andando lentamente, e correu para encontra-los

- Obrigado, Lena – disse ele suavemente.

O medo havia desaparecido do rosto dele. Havia orado e agora estava pronto.

ALÉM DO DESEJO – PRÓLOGO – PIERRE LA MURE

01 maio 2005

25 abril 2005

LIVROS DO VESTIBULAR 2006 DA UFMG

ANÁLISE LITERÁRIA DOS LIVROS DO VESTIBULAR 2006 DA UFMG
MELHOR IMPOSSÍVEL
ACOMPANHEM:

17 abril 2005

HÖLDERLIN: UMA ALMA DESPEDAÇADA

Filho de pastor protestante, quis seguir a vocação paterna. Em 1780 estudou teologia na Universidade de Tubingue, com colegas que se chamavam Hegel, Schelling. Deixou de crer. Conhecia Rousseau, Goethe, Schiller e o romantismo embriagava-o. Gostava de natureza misteriosa, da lúcida Grécia. Ama-as simultaneamente e sonha em unir suas belezas numa obra alemã. Era pobre e tinha que levar a dura vida do poeta necessitado. Professor, suportou o aborrecimento das casas ricas, em quase todas desprezado e em uma, muito querido: satisfação logo seguida pela desilusão. Volta à vila natal, onde as pessoas e o ar são doces. Trabalha, escreve todo o tempo de que dispõe, mas pesa-lhe viver à custa dos seus, e afasta-se. Manda imprimir alguns versos, e o público não gosta desses belos poemas, onde o gênio de um desconhecido faz os deuses do Olimpo passar pelas sombras das florestas renanas. O infeliz Hölderlin sonha criações mais vastas, mas retém o sonho: a Alemanha é um mundo, e a Grécia um outro mundo. È preciso a força de um Goethe para as unir e fixar as palavras eternas de Fausto, raptor de Helena. Hölderlin escreveu fragmentos de um poema em prosa. Seu herói é um jovem grego que se lamenta da ruína de sua raça, e, frágil precursor de Zarathustra, clama pela renascença de uma valorosa humanidade. Compôs três cenas de uma tragédia cujo herói é Empédocles, tirano de Agrigente, poeta, filósofo, grande inspirador das multidões, grego isolado, por sua própria grandeza, entre os gregos, mágico que, possuindo toda a natureza, cansa-se das satisfações que a vida pode oferecer e se retira para o cimo do Etna, deixando a família, seus amigos, seu povo que o quer, e, um dia, ao nascer da noite, atira-se na cratera. É obra de fôlego: Hölderlin abandona-a. A tristeza o enfraquece e exalta. Quer deixar a Alemanha, onde tanto tem sofrido, e libertar os seus de sua vida incômoda. Propõem-lhe um emprego em bordeis, na França, e ele desaparece. Seis meses mais tarde, volta ao lar, vestido de farrapos, queimado pelo sol. Interrogam-no, mas ele nada diz. Procuram informar-se e, após grande trabalho, vêm a saber que ele atravessou a França a pé, sob o sol de agosto. Sua inteligência está perdida. Ele acaba-se, abisma-se num torpor que dura quarenta anos. Morre em 1843.

08 abril 2005

MISSIVAS ENTRE NIETZSCHE E WAGNER

Vou publicar sempre que possível, correpondências entre pessoas que marcaram o pensamento ocidental. As cartas revelam muita coisa, sobre a pessoa e as suas idéias. Vejam por exemplo, estas duas correspondências:
Querido amigo,
Quanto a mim, grito: "É isso mesmo!" Você atingiu a verdade e tocou o ponto justo com um agudo dardo. Espero com admiração a continuação do seu trabalho e das lutas que você há de travar com o dogmatismo vulgar. No entanto, você me causa cuidados e desejo, de todo o coração, que não quebre o pescoço. Quero, portanto, aconselhá-lo a não expor seus audaciosos pontos de vista, dificilmente aceitáveis, em pequenas brochuras que pouco ajudam. Sinto que você está profundamente penetrado por suas idéias; é preciso reuni-las para nos dar um livro volumoso, de mais vasta ação. Então, você encontrará e dirá a palavra justa sobre os divinos erros de Sócrates e de Platão, esses criadores, tão maravilhosos, que nós mesmos que discordamos deles, ainda os devemos adorar. Oh, meu amigo! As palavras se elevam como hinos quando consideramos a incompreensível harmonia dessas essências estranhas ao nosso mundo! E que orgulho nos anima, que esperança, quando examinando-nos a nós mesmos, sentimos forte e claramente que podemos e devemos realizar qualquer obra para eles mesmos inacessível!
Até breve,
Nietzsche
********************
Caro amigo,
Como é bom a gente poder escrever tais cartas! Não existe ninguém, hoje, com quem eu me possa entender tão bem como com você, excetuada uma única (*). Deus sabe que seria de mim sem isso! Mas ele permitirá que nenhum projeto melhor me tente e que possa dispor de muito tempo, para que me abandone ao prazer de lutar com você contra o "socratismo"; porque, para esclarecer um tal problema devo renunciar a toda criação. É preciso que dividamos o trabalho. Você pode muito, para mim. Pode se encarregar de metade do trabalho que o destino me designou. E, fazendo isso, talvez cumpra todo o seu destino. Eu sempre me sai mal de todas as experiências filológicas. Você também se saiu mal das experiências musicais – é bem isso. Como músico, você se tornaria, pouco a pouco o mesmo que eu me tornaria se me obstinasse em realizar trabalhos de filologia. Mas a filologia me ficou no sangue; como musicista, ela é que me dirige. Você, que é filólogo, continuando a sê-lo deixe-se dirigir pela música. Dou um sentido muito sério ao que estou dizendo. Soube por você, como são baixas as preocupações a que se deve restringir hoje um filólogo de profissão – e você soube, por mim, em que inominável chiqueiro tem que se agitar hoje um verdadeiro e "absoluto" musicista. Exponha o que deve ser a filologia e ajude-me a preparar esta grande "Renascença" na qual Platão abraçará Homero e Homero, penetrado pelas idéias de Platão há de ser, pela primeira vez, o sublime Homero...
Wagner
(*) Senhora Cosima Wagner
Correspondências entre Nietzsche e Wagner em – A vida de Frederico Nietzsche – Daniel Halévy. Pág. 51-51

02 abril 2005

PEDAÇO DE RETRATO

Não gosto de falar em nada sobre mim, mas vou abrir uma exceção, para dizer um pouco, sobre coisas de que eu gosto. Ou seja, dos meus quatro prazeres terrenos.
A primeira é conversar com o Éder, ou melhor, de ouvi-lo falar, pois ele é completo, de pensamento muito refinado e peculiar, com quem se pode conversar sobre tudo, mesmo de coisas banais. No mundo das idéias, ele é aquele ô Antonico, que faz a massa comer do biscoito fino que fabrica.
A segunda é ler. A leitura é o meu combustível. Considero-a um instrumento capaz de jogar luz na escuridão de nossas vidas e é um alento para a solidão de nosso tempo.
A terceira é o meu cigarro, que hoje venho tragando, através principalmente da televisão, em função de quase não ter tempo para nada: ouvir o que as pessoas estão pensando sobre um monte de coisas. É claro que não ouço qualquer um. Adoro ver entrevistas, palestras, debates, documentários, participar de congressos. Isto é tão sério, que hoje vendo o programa Starte, em que falava de espaços construidos para debater idéias, como a Casa do Saber e a Casa das Rosas, esta criada com o acervo da biblioteca do poeta Haroldo de Campos, em São Paulo, um professor disse que em Paris, existe um espaço em que oferecem 365 palestras no ano, ou seja, uma para cada dia do ano, inclusive no natal. Com certeza para mim, “isto é o paraíso. Quando morrer, quero ir para lá”.
A quarta é Minas, tenho uma verdadeira obsessão por Minas Gerais, acho-a linda, suas montanhas são o meu limite. Não me interessa em quase nada, o que está além delas. Minas é o meu país. Desejo conhecer cada centímetro, dessa minha nação.

20 março 2005

CONVERSANDO COM DARCY

SABEDORIA

Vejo por aí muita criança perguntona e não vejo ninguém com paciência para explicar as coisas a elas. Dá pena. Sobretudo, das menininhas de voz esganiçada, perguntando: Por quê? Para quê? Por isso sou professor . Só peço que não me tratem de tio. Não sou tio de ninguém, não. Sou é escritor.

Vou contar para vocês, tintim por tintim, tudo que sei. Não digo que sei tudo, nem digo que o que sei seja sempre verdade. Quem sou eu? Vou dizer aqui, por escrito, o que acho das coisas desse mundo, com a sabedoria que vim juntando a vida inteira. Não sou velho, mais sou meio erado, antigo.

Sempre vivi de olho aceso, assuntando, querendo entender. Assim é que aprendi: observando. Mais, ainda, aprendi de oitiva, escutando sabedorias alheias e conferindo. Li, também, muito almanaque e revista e fui guardando na cabeça o que prestava. Estudo mesmo, estudei muito demais, mas aprendi pouco. Tome o que digo aqui como minha opinião, não mais. Se puder desmentir, desminta logo. Respeitarei sua opinião. Se não for bestagem rematada, acato. Nada contra.

Conheci muita gente considerada sábia e quis aprender com elas. Não deu certo. Os sábios são muito minuciosos. Cada qual sabe lá sua coisinha e ignora todo o resto. E o resto é o mundo inteiro. Eles são variadíssimos.

Há sábios para toda sorte de coisas. Sábios para bichos – os zoólogos; sábios para plantas – os botânicos; sábios para micróbios – os microbiologistas; sábios para gentes – os etnólogos; sábios para vinhos – os enólogos; até sábios para capins existem – eu não sei é como eles se chamam.

Também há sábios híbridos, que misturam sabedorias para ver se entendem melhor alguma coisa, como os físico-químicos, os químico-físicos, os biofísicos, os geofísicos e outros. Esses doutores formados, que falam com toda a empáfia da sabedoria deles, não são sábios coisa nenhuma. Quase todos são uns ignorantes, como a gente mesmo, só sabem coisas lá da cuca deles, com que ganham a vida.

Há muita gente especializada que, sem ser sábio, sabe alguma coisinha. O diabo é que, quanto mais aprofundam no saber do que sabem, mais ignorantes ficam o resto. Os advogados sabem como enrolar as leis para defender criminosos e ladrões, Vez por outra, defendem inocentes, também. Os médicos sabem algumas das doenças, mas ignoram as outras todas. São muito sujeitos à moda. Quando dão de operar amígdalas, arrancam as amígdalas de todo mundo. O mesmo fazem quando a moda é operar apêndice. Agora, acham que todo mundo está loucão e precisa de pílulas tranqüilizantes, ou psico-qualquer-coisa.

Para procurar médico, a gente precisa, primeiro, prestar atenção para ver que doença tem, senão gasta muito dinheiro à-toa. Ir a um otorrinolaringologista com dor nos rins é perda de tempo: eles só sabem de otites, de dor de garganta e de espirro desenfreado. Os ortopedistas encanam perna quebrada direitinho, mas não sabem nada de quem sofre do coração. Os engenheiros também são especializados demais: o que sabe fazer pontes, só faz pontes; o que sabe fazer casas, só faz casa.

Ás vezes, até penso que quem sabe mesmo é o povo, ou as pessoas que não sabem nada. Mas cada um se vira com o pouco que sabe para ganhar a vida. Se todos os sábios do mundo desaparecessem amanhã, não fariam muita falta. Se o povo acabasse, isso sim seria um desastre. Os sábios morreriam de fome e de sede.

Trate de aprender tudo o que puder. Saber demais não ocupa lugar. Ignorância, sim. A sabedoria anda solta por aí, para a gente aprender o que quiser. Ela está menos nos livros que nos fazimentos, por isso se diz que quem sabe, faz, quem não sabe, ensina.

Se o mundo fosse acabar outra vez, num dilúvio, que faria o novo Noé da barca, para salvar a humanidade? Escolha você entre duas soluções. A primeira seria pegar dez sábios de cada profissão, formados em universidades, e levá-los para uma morraria deserta com seus livros e instrumentos de trabalho. A segunda seria catar na feira uns mil feirantes com suas mercadorias e carregar para o mato. Quem salvaria a humanidade?
DARCY RIBEIRO – NOÇÕES DE COISAS – 1995 – PÁG. 09-11

10 março 2005

O CANTO DE NIETZSCHE

A POBREZA DO RIQUÍSSIMO

(Dos Ditirambos de Dionisio, 1888: "Estas são as canções
de Zaratustra, que ele cantava para si mesmo,
para suportar sua última solidão".)

Dez anos já –
e nenhuma gota me alcançou,
nem úmido vento nem orvalho do amor
- uma terra sem chuva...
Agora peço à minha sabedora
que não se torne avara nessa aridez:
corra ela própria, goteje orvalho;
seja ela a chuva do ermo amarelado!
Um dia mandei as nuvens
embora de minhas montanhas -
um dia eu disse, "mais luz, obscuras!"
Agora as chamo, que venham:
Fazei escuro o meu redor com vossos ubres!
- quero ordenhar-vos,
vacas das alturas!
Leite quente, sabedoria, doce orvalho do amor
derramo por sobre a terra.
Fora, fora, ó verdades
de olhar sombrio!
Não quero ver em minhas montanhas
Acres verdades impacientes.
Dourada de sorrisos,
de mim se acerca hoje a verdade,
adoçada de sol, bronzeada de amor –
só uma verdade madura eu tiro da árvore.
Hoje estendo as mãos
às seduções do acaso,
bastante esperto para guiar, tapear o acaso,
como a uma criança.
Hoje quero ser hospitaleiro
com o mal-vindo,
contra o destino mesmo não quero ter
- Zaratustra não é um ouriço.
Minha alma, insaciável com sua língua,
já lambeu em todas as coisas boas e ruins,
em cada profundeza já mergulhou.
Mas sempre igual à cortiça
Sempre bóia outra vez à tona
Bruxuleia como óleo sobre os mares morenos:
por ter essa alma me chamam o Afortunado.
Quem são meu pai e mãe?
Não é meu pai o príncipe Supérfuo,
e mãe o Riso silêncioso?
Não me gerou esse duplo conúbio,
eu animal de enigma,
eu monstro luminoso,
eu esbanjador de toda a sabedoria de Zaratustra?
Hoje doente de delicadeza,
Um vento de orvalho,
Zaratustra está sentado, esperando, esperando, em suas montanhas –
eu seu próprio suco
tornado doce e cozinhado,
embaixo de seu cume,
embaixo de seu gelo,
cansado e venturoso,
um criador em seu sétimo dia.
- Quietos!
Uma verdade passa por sobre mim
Igual a uma nuvem –
com relâmpagos invisíveis ela me atinge.
Por largas lentas escadas
Sobe até mim sua felicidade:
vem, vem, querida verdade!
Quietos!
É minha verdade! –
De olhos esquivos,
De arrepios aveludados
me atinge seu olhar,
amável, mau, um olhar de moça...
Ela adivinha o fundo de minha felicidade,
ela me adivinha – ah! o que ela inventa? –
Purpúreo espreita um dragão
no sem-fundo de um olhar de moça.
Quietos! Minha verdade fala!
Ai de ti, Zaratustra!
Pareces alguém
que engoliu ouro:
ainda hão de te abrir a barriga!...
És rico demais,
Corruptor de muitos!
São muitos os que tornas invejosos,
são muitos os que tornas pobres...
A mim própria tua luz faz sombra –
ela me enregela: vai embora, tu, que és rico,
vai, Zaratustra, sai de tu sol!
Queres presentear, distribuir teu supérfluo,
mas tu próprio és o mais supérfluo!
Sê esperto, tu, que és rico!
Presenteia antes a ti próprio, ó Zaratustra!
Dez anos já –
e nenhuma gota te alcançou?
Nem úmido vento? nem orvalho do amor?
Mas quem haveria de te amar,
ó mais que rico?
Tua felicidade faz secar em torno,
Torna pobre de amor
- uma terra sem chuva...
Ninguém mais te agradece,
mas tu agradeces a todo aquele
que toma de ti:
nisso te reconheço,
ó mais que rico,
ó mais pobre de todos os ricos!
Tu te sacrificas, tua riqueza te atormenta –
Tu dás,
não te poupas, não te amas:
o grande tormento te força o tempo todo,
o tormento dos celeiros saturados, do coração saturado –
mas ninguém mais te agradece...
Tens de tornar-te mais pobre,
Sábio insensato!
Queres ser amado.
Ama-se somente aos sofredores,
só se dá amor aos que têm fome:
presenteia antes a ti próprio, ó Zaratustra!
- Eu sou tua verdade...
FRIEDRICH NIETZSCHE (1844-1900)

23 fevereiro 2005

O ÚLTIMO DIA DE MIM - EÇA DE QUEIROZ

Encontro-me em um quarto de Paris, melancólico e sentindo reflorescer em mim a vida que vivo, e a que poderia tervivido. Sinto em meu ser a ternura lusa, de um pobre homem de Póvoa de Varzim, que muito ironizou a sua pátria por amá-la e melhor dela querer. Tudo em mim é lusitano. Vejo que consegui transmitir e me libertar desses sentimentos em meu romance, que há pouco terminei. Nele derramei liricamente os valores portugueses essenciais: o homem, as paisagens, a história, a quinta, a freguesia e a aldeia, mas sempre fui um crítico mordaz, caricaturando os ridículos de uma sociedade presa a valores rurais que ansiavam pelos urbanas criados pela revolução industrial.
Tive uma infância turbulenta. O meu nascimento se deu em circunstância irregular, pois os meus pais ainda não eram casados, obrigando-me a passar a infância e a adolescência afastado deles. Fui registrado como filho de mãe incógnita, uma ave sem ninho. Vivi com a minha ama de leite e, após a sua morte, com meus avós paternos. A falta de afeto, amparo e carinho, na qual meu ser mergulhou, aguçou a minha sensibilidade, caminhando no tempo da vida com a alma ferida, protegendo-me com arraigada timidez, como um caramujo se defendendo, fazendo com que, a partir da adolescência, eu criasse mundos e personagens, impedindo o retorno a minha infância, que tanto procurei esquecer e sobre a qual sempre silenciei. Lembro-me de uma de minhas confissões da infância, uma artigo sobre o "francesismo", onde digo: "apenas nasci, apenas dei os primeiros passos, ainda com sapatinhos de crochê, eu comecei a respirar a França. Em torno de mim só havia a França. A minha mais remota recordação é de escutar, nos joelhos dum velho escudeiro preto, grande leitor de literatura de cordel, as histórias que me contava de Carlos Magno e dos Doze Pares... Também o meu preto lia contos tristes das águas do mar. Eram as aventuras de um João de Calais". Depois desse artigo, quase que não fiz outra coisa pela a vida afora, a não ser escrever. "As abelhas só sabem fazer mel, e eu só sei fazer romances".
Parece tão recente o lançamento na Revista Ocidental do Romance O Crime do Padre Amaro e, logo depois, em livro sua primeira versão. A primeira edição não era O Padre Amaro que eu trouxera do ventre. Após as diversas revisões, passou a ser uma obra nova, a minha melhor obra. Na gestação cheguei a escrever a um amigo, antigo confidente, Ramalho Ortigão, dizendo-lhe como concebi o livro em uma tarde, na casa de uma senhora que tocava uma gavota, quando de repente flamejou-me, através da idéia, todo o livro, chegando à minha mente com um escândalo no país, um romance que punha a nu a fraqueza, a anarquia , a covardia em que mergulharia Portugal em conseqüência de maus governos. Queria com o livro dar um choque elétrico ao porco adormecido (refiro-me à Pátria). Além do mais é um romance que fala da vida da pequena vila devota, o grupo de padres e beatas da casa S. Joaneira, o mundo grotesco que se agita em torno da velha Sé. Uma história dum sortido amor sacrílego, entre um sacerdote e uma rapariga educada numa atmosfera de beatice e lassidão moral. Este romance inaugura o realismo em Portugal.
Acredito que renasço em meus romances. A vida é feita de perdas sucessivas, e cada dia morre alguma coisa de nós mesmos, ou, o que vem a ser o mesmo, algum dos que amamos. Houve uma época que escrevi em um álbum no qual já haviam colaborado Guerra Junqueira e o Oliveira Martins. A vida, eis o mote. Reflexo da alma: O amigo Oliveira Martins diz que a vida é um sonho; o amigo Guerra Junqueira diz que é um punhado de areia. Se é sonho, é o único que vale a pena sonhar; se é areia, é a única com que vale a pena edificar.
Antes da minha transferência para o consulado de Bristol, lancei o meu romance O Primo Basílico, a bomba literária e moral que explodiu na terra lusa ou o escândalo branco. Os críticos conservavam sobre mim um silêncio desdenhoso, mais aos poucos foram quebrando o gelo, catalogando como obscena e imoral uma obra realista ou naturalista. Tive nele a capacidade de plasmar fielmente em poucos traços uma realidade observada, lamentando-me por não poder conseguir a nota sublime da realidade eterna nem a nota justa da realidade transitória . Uma síntese instantânea do enredo: É uma mulher que tem uma amante, que é espreitada e seguida por uma criada – a qual se apodera das provas do adultério e estabelece uma tirania de todos os instantes sobre a ama: tirania longa, cruel, horrorosa, um verdadeiro drama íntimo. Sendo o assunto costume contemporâneos – não da província desta vez – mas de Lisboa. É um trabalho realista – talvez um pouco violento e cru, ma não foi para fazer dele uma leitura de serão nos colégios que o escrevi. O romance, esse é a apoteose do adultério, na estuda, nada explica, não pinta caracteres, não senha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem ação.
Embora este fosse um livro que eu tivesse pressa em concluir, não perdi nele o habito das alterações, pois, confesso, é quase impossível para um escritor não fazer alterações nas provas, quando ao reler um trabalho impresso se vê uma palavra ou uma frase falsa – é absurdo não substituir, bem assim, é absurdo não introduzir ou alterar quando acode uma palavra ou uma frase de mais efeito. Isto acontece sempre, desde que se imprimem livros. É uma eterna insatisfação, busca da perfeição, uma ânsia de dar à língua uma forma nova, simples, na qual a nitidez do pensamento corresponde à beleza da frase. Até na capa vivi o escritor, uma capa bonita – é essencial num livro – como um vestido uma mulher. Foi um livro que me deu um trabalho dos demônios. Eu não sou gênio e trabalho devagar: talvez não acreditam, mas cada folha da revisão do "Primo" levou-me de dois a três dias, mas no dia vinte e um de fevereiro de mil oitocentos e setenta e oito O Primo Basílico foi posta a venda em Lisboa.
Estava ávido por conhecer a repercussão do livro. Ramalho escreverá com franqueza sobre o romance: "As cenas d’alcova são reproduzidas na sua nudez mais impudica e mais asquerosa. Este livro concebido com amargura e com misantropia deixa no espírito de quem lê uma triste impressão de melancolia e desalento" . Meu velho pai José Maria também externou as suas observações sobre o romance: "No ponto de vista da escola realista que te domina, o romance é uma obra d’arte perfeita. Entretanto eu creio que, mesmo nessa escola, há um ponto além do qual não é permitido, ou pelo menos não é conveniente passar. Pode mostrar-se a chaga, e o realismo está nisso; mostrar, porém, toda a podridão não dá mais caráter à escola realista, e leva ao exagero, que é um defeito de todo o gênero de composição. De resto deixa falar, ou não falar os invejosos, e vai por diante. Recomendo-te só que em tudo o que escreveres evites descrições que senhoras não possam ler sem corar".
Passei um bom tempo justificando e explicando o ataque à família lisboeta: Um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a que conhece a burguesia de Lisboa; - A senhora sentimental , mal educada, nem espiritual (porque o cristianismo já o não tem; sanção moral da justiça, não sabe o que isso é) arrasada de romance, lírica, sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular que é ordinariamente a luxúria, nervosa pela falta de exercício e disciplina moral, etc, etc; - enfim uma burguesia da baixa... Uma sociedade sobre estas falsas bases, não esta na verdade: atacá-las é um dever. E neste ponto O Primo Basílico não está inteiramente fora da arte revolucionária, creio. Pois analisei a vida social enfocando a constituição moral da família na burguesia média da capital. Oferecendo uma crua visão da realidade, à qual o público não estava acostumado, e que foi objeto de ataque e viva controvérsia. Aparecem folhetos que avisavam as mães dos perigos para a moral existente na nova arte.
Minha evolução foi lenta, harmoniosa, intensa. A disciplina férrea da observação aquietava a minha fantasia e serenava a minha forma. Conquistando a minha maneira inconfundível, sugestiva e irônica, síntese consciente dos dois pendores contraditórios de minha alma: O impulso atávico do meu temperamento para a livre imaginação, o lirismo e a eloquência, dum lado; e do outro a minha tendência, adquirida pela educação positivista à qual me submeti, para uma percepção clara e imediata dos elementos objetivos da realidade e o desejo de exatidão na expressão deles, sem desdenhar, ou mesmo procurando-lhes os aspectos prosaicos, feios ou baixos. O resultado do meu esforço para resolver essa dicotomia interna é um estilo específico de romance em que entram numa peculiar fórmula de fusão, o solto vôo da fantasia romântica e a insubordinável probidade realista. Iniciei esta nova estética em O Mandarim, deliciosa novela fantástica, cujo prólogo, destinado a uma versão francesa, é uma irônica auto-análise literária. Um conto fantasia e fantástico , onde se vê, ainda como nos bons velhos tempos, aparecer o diabo, embora em redingote, e onde ainda há fantasmas, embora com boas intenções psicológicas. Espíritos assim formados devem afastar-se necessariamente de quanto seja realidade, análise, experimentação, certeza objetiva. O que os atraí é a fantasia, sob todas as suas formas, desde a canção até a caricatura, também em arte, nós produzimos principalmente líricos e satíricos. Eis porque, mesmo depois do naturalismo, ainda escrevemos contos fantásticos, autênticos, desses onde há fantasmas e onde se encontra, no canto das páginas, o diabo, o amigo diabo, esse delicioso terror da nossa infância católica.
Depois de uma longa gestação conclui Os Maias, neste romance, estendi o meu campo visual à alta sociedade., tardiamente romântica. Servindo de fundo um caso de incesto., pinta-se em quadros cheios e movimentados a vida das alta esferas da política, do governo, da aristocracia, das finanças e da literatura, observada com ironia cruelmente escrupulosa. Também, não podia evitar, neste romance, minhas purificações nas águas lustrais da geografia poética e exótica, Não encontrei para o herói do livro e mesmo para mim, melhor purificações do que a viagem a mundos distantes do planeta, através de geografias das antigas civilizações.
Lembro-me de minhas confidências sobre o romance, ao querido Joaquim Pedro, dizia-lhe: "saíram uma cousa extensa e sobrecarregada, em dois grossos volumes! Mas, há episódios bastantes toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos demais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena no jornal "A Tarde"; e, sobretudo, o sarau literário". Mesmo sendo idealizado há mais de dez anos , o livro atingiu alentadas proporções.
Os Maias movimentaram e dividiram a crítica, não podendo eu me queixar do silêncio. Dentre as apreciações sobre o romance, a que mais me agradou foi a de Silva Gaio, era como se dissera serem Os Maias uma caricatura da sociedade portuguesa. Ele fizera está observação:" são realmente, em mais de um ponto de vista. Mas, dá-se com está sociedade o que se dá com alguns indivíduos: são já de si tão caricatos, que o lápis irreverente nada mais fez do que dar-lhes a atitude que lhes convém, a expressão última definitiva do que eles são".
Até o momento Os Maias é o meu último livro impresso. Sendo ele um desfile da multidão de personagens, imortais. Desde Maria Eduarda e Carlos da Mais, protagonistas principais, ao lado de cujas dolorosas existências passam o grotesco Conde Gouvarinho, Damasco salcede, o poeta Alencar, o sarcástico João de Ega até o bom e inditoso Afonso da Maia, o senhor do Ramalhete. Creio hoje que fui recompensado pelos dez anos consumidos. Os Maias conseguiram se edificar sobre as rochas.
Apesar de minha má saúde, escrever estas palavras me faz peregrinar em minha vida agravando a minha melancolia. Pois sou um doente que não conhece cama e Paris é ainda o sítio em que bate mais largamente o coração da humanidade. Como uma borboleta à morte adeja sobre minha cabeça. Meu corpo se encontra esguio e curvo, tomando aparências esqueléticas, meus nervos se encontram eletrizados e vibráteis, mesmo assim me movo, agito-me alegremente, na maior parte do tempo tenho uma atitude de exaustão. Às vezes me brotam observações argutas, ditos mordazes, anedotas hilariantes. Depois a prostração, o letargo de dias e dias, em que não me agrada ver pessoa alguma, esta solidão que me povoa de pensamentos dolorosos. Meu trabalho agora se assemelha a uma tortura mental e não a uma criação como antes, quando era feito em pleno gozo, na tentativa de tornar meus romances uma obra de arte.
A propósito, A Casa de Ramires está péssimo, um horror, espero que ninguém leia. Sei que sou um eterno insatisfeito, Ramires, Fradique e o Jacinto d’A Cidade e as Serras não terminarão as suas jornadas.
Oh! Minha Lisboa, você sempre foi o meu laboratório de arte, o meu material de estudo, a minha crítica preocupação, o meu mundo de escritor. Sou a chaga dessa sociedade decadente, que tentei salvar expondo-a a luz ou fustigando-a com o estilete da ironia. Na realidade, eu te amo, minha querida Lisboa. Orgulho-me do pobre homem de Póvoa de Varzim. Como esquecer os velhos tempos? – o cenáculo, o Chiado, a Casa Havanesa, o Hotel Bragança, os Vencidos da Vida. Às vezes a vejo mesquinha. Talvez seja o tédio. E voltar a ti é o meu sonho, Lisboa.
Sinto-me exausto. E creio que estou imerso na única dança que dançamos. Hoje são quinze de agosto de mil e novecentos, entretanto, não tenho esperança, o romance o qual todos somos obrigados a viver, para mim está no último capítulo. Minha alma transborda as últimas palavras que ainda pedem movimento. Mas o meu instinto insiste em que tudo ao meu redor vai acabar, desaparecendo gentes, bichos, arvores, jardins, casas, órfãs, pianistas, histórias, cadernos – o que pode restar da história de um romancista ou de um louco? Não mais a vontade de glória (mas que glória?) ou de poder (mas que poder?). Apenas o instinto de permanecer através da idéia, da palavra – desafio à morte. Obsessão de infinito da nossa finitude, exigência maior do criador. A morte não é difícil. Difícil é a vida e o seu ofício.

22 fevereiro 2005

A MAIS BELA FORMA DE SE FAZER CIÊNCIA


CHARLES DARWIN O GÊNIO ATORMENTADO

Um verdadeiro escândalo estourou quando Charles Darwin publicou, em 1859, Da origem das espécies pela via da seleção natural. A primeira edição - de 1.250 exemplares, volume grande para a média da época - se esgotou em alguns dias. Nascia assim o "transformismo", uma doutrina que se opunha frontalmente às idéias consagradas sobre o tema e que, por oposição, seriam a partir daí chamadas de "fixismo". O autor escrevia: "Os bons criadores de animais domésticos procuram, por meio de uma seleção metódica dos pais, criar novas linhagens, superiores às existentes no país. Mas há outra seleção, bem mais importante, que poderíamos chamar de inconsciente, cuja mola propulsora é o desejo que todos sentimos de reproduzir os melhores indivíduos de cada espécie. Assim, quem quer cães de caça começa escolhendo os melhores exemplares entre os encontrados, para depois providenciar sua descendência. Não é certo que a intenção seja, sempre, a de modificar a raça. Mas, se essa prática se repetir, acabará por produzir a modificação da raça."Assim é a seleção artificial. Sobre a base desse mecanismo indiscutível, Darwin enxertou a "seleção natural", cuja exposição iria desencadear verdadeiras tempestades. O motor da evolução é a persistência do mais apto na luta pela vida. O lobo mais forte tem mais possibilidade de ter filhotes do que os lobos mais fracos, mantidos à parte do grupo. A borboleta que passa mais desapercebida, sobre a planta onde pousa, tem mais chance de sobreviver do que outras, e sua descendência conseguirá se confundir com a vegetação.
Esse homem, por ocasião do lançamento de sua teoria, tinha 50 anos de idade, e teve idéias bastante revolucionárias para sua época por reflexões feitas na juventude, no curso de uma longa viagem científica de volta ao mundo. Mas ele tinha consciência de que suas convicções eram explosivas, a ponto de ter preferido amadurecê-las durante muito tempo. Pôde, ao longo desse período, reforçá-las com os melhores argumentos, antes de publicá-las.
Se Charles, o segundo filho de um rico médico de Shrewsbury, no noroeste da Inglaterra, era especialmente dotado do ponto vista intelectual, era também bastante despreocupado. Seu pai, muito rígido, lamentava que ele se dedicasse sobretudo "à caça, aos cães e à captura de ratos". O rapaz preferiu não seguir a carreira médica, conforme a tradição familiar. Demonstrou até mesmo vivo horror pela atividades desde a primeira intervenção cirúrgica a que assistiu, feita em uma criança, evidentemente sem anestesia. Seu pai quis, então, fazer dele um sacerdote. Foi sob essa perspectiva que Charles começou seus estudos em Cambridge.
Dotado de grande inteligência e facilidade para aprender, ele só se dedicava aos estudos de modo diletante. Continuava a recolher pedras e insetos. A caça, sua paixão, também o mantinha em contato com a Natureza da mesma forma que suas leituras favoritas, as dos grandes viajantes, em especial Humboldt. As incursões para estudos de arborização, com seu professor de botânica, permitiram que ele fizesse observações precisas.
Em três anos, se formou. No outono de 1831, voltou à casa paterna, sem saber muito bem o que faria da vida, que parecia fácil. E então desabou a tempestade, antes que o verão sequer tivesse chegado ao fim. O responsável foi seu professor de botânica, embora valha uma reflexão a respeito do destino e de como se entremeiam seus fios. Tudo decorreria, é certo, de sua grande curiosidade e de sua viva inteligência.
O mestre, que gostava muito de seu jovem amigo, foi contatado pelo almirantado, que preparava uma expedição hidrográfica de volta ao mundo, dedicada especialmente a fazer o levantamento das profundezas do oceano e estudar as correntes marítimas em torno da América do Sul. O jovem naturalista foi consultado sobre seu interesse em participar da viagem. Sem nenhum salário, evidentemente. A proposta caiu como uma luva para Darwin. Ao lhe oferecer essa função, seu protetor escreveu-lhe : "É uma ocasião excepcional para um homem dedicado e de caráter". O jovem, porém, enfrentou uma dificuldade inicial. Teve de recorrer ao tio para reverter a negativa que ouviu do pai ao consultá-lo sobre a partida. Essa resistência não só foi vencida como dele recebeu dinheiro suficiente para gastos que teria por vários anos.
No final do ano de 1831, ele estava a bordo quando o Beagle deixou a Inglaterra para uma longa exploração marítima que se tornaria famosa. Darwin, então com 22 anos, compartilhava a cabine com o igualmente jovem, de 27 anos, capitão Fitzroy, chefe da expedição, cujo nome foi dado, no final do século XX, a um dos mais belos picos nevados dos Andes. Era o começo de um longo convívio e uma estreita relação de amizade. Não obstante, mais tarde, o mesmo Fitzroy se alinhou entre os mais ferozes inimigos de Darwin, por sua oposição aos ensinamentos bíblicos.
No último verão de sua epóca de estudante, Darwin tinha acompanhado um professor de geologia de Cambridge numa viagem de estudos ao País de Gales. Somado a isso, nos primeiros dias da travessia, leu os Princípios de Geologia de Charles Lyell, cujo primeiro tomo acabara de ser publicado. Era uma obra de muita repercussão, construída com base na idéia de que a Terra sofria os efeitos do que o autor chamou de "causas atuais".
Ele estava bem preparado, portanto, para o que viria a descobrir em sua primeira escala tropical, quando abordaram as ilhas de Cabo Verde. Rochas brancas a uns 15 metros acima do nível da praia continham as mesmas conchas e mexilhões que se podia encontrar à beira-mar. Altos rochedos negros davam prova de atividade vulcânica recente. Assim se revelou ao jovem viajante a importância decisiva do tempo: essas ilhas que haviam se formado há pouco tempo, mais recentemente ainda haviam emergido.
Não tardou para que se iniciasse a lenta navegação ao longo da costa da América do Sul, com incursões por seus recortes hidrográficos, durante as quais o naturalista iria explorar terras, ao longo de vários anos. Dessa maneira, Darwin encontrou nos pampas argentinos seus primeiros fósseis. No leito seco de um rio despontavam as ossadas. Ele as exumou. Explorou e escavou os arredores. Descobriu restos de monstruosos quadrúpedes. Um deles tinha o tamanho de um elefante, mas a dentadura de um roedor. Um espírito dotado de razão não poderia deixar de concluir que, apesar da crença generalizada sobre o recente nascimento da Terra já com o formato atual, o planeta, bem como a vida nele, havia evoluído durante muito tempo, antes de assumir as características do presente.
Bem mais ao sul, na Patagônia, perto de Puerto San Julian, Darwin encontrou fósseis de animais gigantes já desaparecidos. Agora, afirmava, "um paquiderme notável, tão grande quanto um camelo". E as dimensões desses espécimes surpreendiam o naturalista. "Este continente deve ter abrigado, em outros tempos, monstros imensos; atualmente, só vemos pigmeus, se compararmos os animais que aqui vivem às raças extintas. Qual pode ter sido a causa do desaparecimento de tantos tipos e de espécies inteiras? Contra a vontade, pensamos numa grande catástrofe. Mas um cataclismo que tivesse sido capaz de destruir dessa forma todos os animais da Patagônia, do Brasil e da cordilheira do Peru teria sacudido o globo terrestre até suas bases mais profundas. Na verdade, o estudo da geologia dessas regiões nos permite concluir que todas as formas de vida sobre a Terra são derivadas de modificações lentas e graduais."
Nas ilhas Falkland, que os franceses batizaram de Malvinas (em francês, Malouines), Darwin se surpreendeu com as impressionantes variedades de formas que apresentavam os "lobos das Falkland", carnívoros já extintos, comparando-se os das ilhas ocidentais àqueles das orientais do arquipélago. Ele desconfiou que a separação de populações em princípio idênticas as fizera evoluir de modos diferentes e independentes, reflexão de capital importância para um espírito que formularia mais tarde doutrinas evolucionistas.
Na Terra do Fogo, no extremo sul do continente, o viajante teria oportunidade de focar suas reflexões na direção de outros seres vivos: os próprios seres humanos. "Alguns indígenas nos seguiram durante várias milhas, correndo ao longo da orla marítima. Eu jamais esquecerei um desses grupos de selvagens: quatro ou cinco apareceram de repente no alto de um rochedo que dominava o mar. Completamente nus, a longa cabeleira solta, eles brandiam no ar grandes bastões; saltavam, agitando os braços e fazendo grotescas contorções, enquanto soltavam os gritos mais horrendos." Uma outra tribo, ele registrou em seus escritos, ostentava como única vestimenta pedaços de pele "apenas suficientes para cobrir as costas até a altura dos rins, que eles envolvem com fios passados de um lado a outro do corpo, e que se agitam conforme a direção do vento". O naturalista refletiu sobre a evolução e também a miserável condição humana, num país onde o inverno é gelado.
Numa ilha que o Beagle logo alcançou, subindo agora pela costa do Chile, foram as mudanças da Natureza que surpreenderam Darwin, em especial as de ordem geológica. Ele assistiu a uma violenta erupção do vulcão Osorno, que domina Valdívia. Alguns dias mais tarde, testemunhou um forte terremoto, o de 20 de fevereiro de 1835, que destruiu a cidade de Concepción. Ele estava deitado sob as árvores, numa praia próxima de Valdívia, quando o chão tremeu por dois minutos. Suas impressões: "O movimento quase me fez ficar enjoado".
O navio retomou sua rota e chegou a Concepción duas semanas mais tarde. Do ponto de vista geológico, a destruição completa da cidade foi menos relevante do que o efeito considerado por Darwin realmente "mais notável": ao redor de toda a baía, as terras sofreram uma elevação, ele calculou, de 2 ou 3 pés. E mais: "Um recife de mexilhões em putrefação, ainda colados aos rochedos, demonstrava uma elevação de uns 10 pés".No seu relato de uma excursão que durou um mês, através das montanhas dos Andes, constam observações a respeito dos terraços de cascalhos e aluviões que enchiam alguns vales, mas em outros haviam sido recortados por erosões recentes. Darwin, a partir do seu estudo, concluiu : "A cadeia de montanhas, em lugar de ter surgido de repente, como ainda acreditam vários geólogos, se ergueu lenta e gradualmente". Assim, sempre e em todos os lugares, a Terra nos mostrava que vive e que não pára de evoluir, há milhares de anos. O que, para a época, era uma heresia.
Assim, durante mais de três anos, o mundo deu ao jovem viajante atento mil provas de suas transformações do presente e de suas metamorfoses ancestrais. Havia mais, porém. O acaso colocou no final dessa incursão sul-americana o arquipélago de Galápagos. Atualmente, conhecemos bastante bem as características excepcionais de sua flora e fauna, que fizeram dessas ilhas uma reserva biológica mundial, com justa razão denominada "laboratório de evolução". A mil quilômetros do Equador, de origem vulcânica relativamente recente, essas ilhas constituem um mundo à parte.
São muito conhecidas fotos ou filmes sobre seus inhames marinhos, seus enormes lagartos terrestres, suas tartarugas, as maiores do mundo, seus pássaros que têm os hábitos de nossos pica-paus, mas que - por não terem os bicos tão pontiagudos - utilizam um espinho de cacto para arrancar vermes vivos do tronco das árvores. Por toda parte, nessas ilhas, a vida assumiu formas bastante particulares - o que prova que ela pode evoluir. Há, ainda, as diferenciações que podem ser estabelecidas entre as populações das várias ilhas. Elas são separadas por canais, freqüentemente largos e sempre com violentas correntezas, que impedem que sejam atravessados. Além disso, os morcegos se encarregaram de eliminar qualquer nadador imprudente. Nem mesmo os pássaros passavam de uma ilha a outra.
Os exploradores separaram, em redomas de vidro, 14 espécies de pintassilgos, diversos tipos de tartarugas, variedades típicas dessa ou daquela ilha. A diferenciação era tão precisa que, diante de Darwin, o governador equatoriano do arquipélago teve ocasião de reconhecer a origem da tartaruga trazida para o seu jantar. Assim, o naturalista teve a confirmação de que, de fato, de uma única origem nasceram espécies variadas, por influência de diversos fatores (meio ambiente, alimentação, transmissão hereditária de características adquiridas acidentalmente).
Depois das ilhas Galápagos, terminava a missão do Beagle. Mas a viagem de volta ainda teria escalas no Taiti, na Nova Zelândia, na Austrália e nas ilhas Maurício, onde o naturalista pôde também constatar milhares de vidas diferentes. O retorno a Portsmouth aconteceu em outubro de 1836. Darwin, física e espiritualmente amadurecido, voltou rapidamente a The Mounth, a propriedade familiar onde caixas de documentos enviados de todas as escalas o aguardavam. Ele estava intimamente convencido da evolução dos seres vivos. Mas tinha consciência do caráter explosivo de suas idéias; tampouco queria publicá-las sem que tivessem amadurecido bem e, sobretudo, sem tê-las reforçado com base em novos estudos, em outros exemplos. Antes ele publicou, com grande sucesso, o relato de sua viagem.
Foram suas idéias a respeito da evolução geológica que suscitam mais interesse, e ele pôde expressá-las plenamente, enquanto deixava de lado as reflexões sobre biologia. Pouco tempo depois, ele leu a Teoria da População, de Malthus, que acabara de ser publicada e que reforçaria suas próprias concepções. "Eu havia finalmente chegado ao momento de elaborar uma teoria...", escreveu, tempos depois. Só em 1859 ele viria a publicar a Origem das espécies, embora o título completo fosse A origem das espécies por meio da seleção natural ou a Preservação das raças favorecidas na luta pela vida.
A obra teve uma procura impressionante e se transformou no escândalo da época. Ele nem tinha, ainda, ousado aplicar suas teorias à raça humana. Escreveu simplesmente: "Um raio de luz complementar haverá um dia de iluminar a questão da origem do homem". Frase prudente, até mesmo sibilina, impotente porém para evitar a cólera e até mesmo o ódio de muitos. Em 1871, saiu a primeira edição de A descendência do homem, livro carregado de um caráter tão explosivo que até mesmo muitos adeptos da teoria da obra anterior se afastaram dele.
A idéia de que seres humanos e macacos pudessem ter ancestrais comuns foi um choque muito forte. No dilúvio de severas críticas que caíram sobre a cabeça do autor, há a indagação mordaz feita pelo bispo de Oxford: "É possível acreditar que variedades especiais de nabos tenham tendência a se tornar homens?".
Outro eclesiástico declarou ter procurado, em vão, na língua inglesa, termos baixos o suficiente para qualificar Darwin e seus partidários. Nos Estados Unidos, onde ninguém ousava brincar com a Bíblia, um professor que defendeu as teses de Darwin, questionando dessa forma o Gênesis, foi entregue à Justiça. Mas Darwin tinha como couraça uma filosofia própria. Enquanto o mundo inteiro era virado do avesso por suas idéias, ele falecia aos 73 anos de idade, em 19 de abril de 1882, em sua propriedade de Kent, de onde ele jamais saiu depois de sua viagem imortal.
Por Pierre de Latil

18 fevereiro 2005

O EMUDECIMENTO DAS CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS


Generalizando, pode-se dizer que as ciências humanas e sociais não estão respondendo, através de suas pesquisas, aos problemas que a sociedade vem vivenciando. Na tentativa de fazer alguma elucidação, os pesquisadores recorrem à repetição de teorias, que outrora tiveram a sua importância, porém hoje, elas tornam o discurso vazio de sentido e vago, em grande parte das publicações.
A necessidade dos pesquisadores de estarem dentro de uma instituição acadêmica, é um dos fatores que colaboram para o emudecimento dessas ciências. Pois hoje, estas instituições são importantes pólos no financiamento de pesquisas em diversas áreas e oferecerem uma cômoda legitimação institucional ao profissional que realiza o seu estudo nelas. Estes dois fatos colocam um número considerável de profissionais condicionados a estas verbas e a segurança na divulgação da pesquisa. E isto torna-se, um dos obstáculos para um olhar diferenciado sobre a sociedade. Visto que, estas instituições são restritivas quanto ao valor do financiamento, porque são obrigadas a desdobrá-lo em outras áreas.
Outro fator, é o aspecto metodológico e as malditas linhas de pesquisas, impostos aos pesquisadores para terem a pesquisa reconhecida pela comunidade cientifica. As universidades no caso do método cientifico, segue-o como um dogma, utilizando-o como uma receita, um paradigma intransponível. Já as linhas de pesquisas são definidas de acordo com interesses interno da instituição e não com os problemas enfrentados pela sociedade. O método clássico, instituído pelo positivismo para verificação e confirmação das hipóteses levantadas, é hoje, no caso das ciências humanas e sociais, muito limitativo, visto que o universo humano é muito complexo e transitório e as intervenções tem que ser muito mais dinâmicas.
O último fato, é a atuação dos orientadores na pesquisa, uma vez que, quando ocorre do pesquisador ter alguma idéia diferente para realizar a sua pesquisa, ele é literalmente impedido, pelo orientador de ir em frente. Sendo a atuação desses ditadores da "ciência" muitas vezes conservadoras, e para um pesquisador, a liberdade é extremamente necessária. Quanto as orientações importantes para o embate reflexivo, podem muito bem ser adquiridas através de uma extensa bibliografia existente, sobre diversos temas e de fácil acesso, e pela própria experiência de êxito e fracasso no momento de se verificar as hipóteses. No entanto, deve-se salientar que para isto, o pesquisador tenha a humildade de reconhecer as suas falhas e ouvir outras visões, sem com isso, tornar-se um boneco de fantoche das idéias de alguém ou da própria pesquisa.
Diversos exemplos, de excelentes pesquisas, podemos encontrar na história, que deram um novo rumo às ciências humanas e sociais. Quando recorremos às obras de Marx, Freud, Weber e alguns outros, ícones das pesquisas realizadas na área humana e social dos dois últimos séculos, esquecemos que as suas pesquisas foram pensadas e elaboradas fora das academias. Marx, dedicou a sua vida à obra, elaborada dentro da biblioteca e cortiços de Londres, financiada pela sua pobreza, pela morte de seus amados filhos, pela compreensão de sua mulher e pela tamanha generosidade de Engels, que muitas vezes assumiu a direção dos negócios do pai, tornando-se um burguês em atividade, para poder mandar dinheiro ao Marx, que trabalhava em extrema miséria em Londres. Freud, quando começou a publicar as suas pesquisas, no final do século XIX, já havia começado a ditadura do desenvolvimento cientifico, apenas dentro das universidades, foi durante muito tempo ridicularizado, apesar de seu rigor metodológico. Não foi poupado por sua independência. Weber, teve que sumir durante dez anos, para florescer as suas brilhantes idéias e tornar-se um dos mais notáveis sociólogos do século XX.
Contudo, não devemos perder de vista o caráter generalista destas afirmações, pois existem algumas ilhas que norteiam o pouco progresso alcançado nas últimas décadas nestas ciências. Mas que foram insuficientes, diante de tantas transformações as quais vem passando o mundo em que vivemos.
Portanto, para tirar as ciências humanas e sociais de seu emudecimento, ou melhor dizendo, de sua gagueira, os pesquisadores devem parar de ficar apenas atrás dos laboratórios, fabricando estatísticas e teorias vazias e começarem a ver que o melhor campo de pesquisas são as pessoas inseridas no mundo. Coragem para não ter medo de fazer indagações sobre o homem e a sociedade, estudar muito e receber como prêmio as vaias, a indiferença e tantas outras coisas típicas de quem aceitou a viver de sua única tese, de quem nunca gostou de conhecer nada, que quiz apenas o título de doutor. Como diz uma das pessoas mais esclarecidas que conheço, ficaram a vida inteira falando da tese que escreveram.

P.S.: Agradeço a R. por me ensinar o que é ciência, não à que se encontra nos manuais de procedimentos científicos, mas a que esta fora das algemas, de olhar crítico e criterioso sobre a sociedade e a própria pesquisa. E ao É. por me ensinar que nem todos estão preocupados em aprender. E o que é dito, não é para ser entendido por todos. Para exemplificar isto, ele usa como metáfora a pergunta feita a J.C. por um apóstolo, quando perguntava-lhe, por que se expressava sobre a forma de parábola e ele o respondeu que era para que todos ouvissem, mas para que nem todos compreendessem.

24 janeiro 2005

MORRENDO COM IVAN ILITCH

Tolstoi, no conto "A morte de Ivan Ilitch", escreve um maravilhoso tratado sobre a existência humana. Fugir da realidade da vida, encená-la em papéis assumidos no cotidiano, é possível, mas quanto a morte, não! E é isso, o verdadeiro horror, a ser enfrentado por todos os homens.
A morte do outro, se apresenta ao vivente como uma mistura de medo e indiferença. O indivíduo acredita ser imortal, e que mortal são apenas os outros, no entanto, diante da precariedade da milagrosa dedução, carrega consigo a dúvida de sua imortalidade. E, mesmo com o corpo falecendo aos poucos, tenta ignorar a morte e entrega-se a uma vacilante esperança, até nos últimos suspiros de vida.
Em meio as indagações do porque viver e morrer, o personagem, Ivan Ilitch, percebe a mentira que foi a sua existência e a da sociedade em que vive. Enoja-se e tem pena daqueles que diante da mentira em que vivem ignoram tanto a vida, quanto a morte. Vê que quanto mais instruídas são as pessoas, maior é a fuga, a indiferença e a representação daquilo que chamam de vida. Distanciam-se da simplicidade, da realidade e consequentemente do sofrimento alheio. O único sentimento que conseguem compartilhar é o medo. E têm como saldo uma existência inautêntica.
Apesar de ser um juiz, Ivan, sente a necessidade de ser acariciado e de cuidados, porém apenas um empregado, que o servia como enfermeiro, é que irá perceber a sua carência e será capaz de lhe oferecer um pouco de conforto, a esta alma solitária. Ivan, descobrirá que amor não tem nada haver com a inteligência. Este pobre mujique, não terá nojo de limpar as fezes deste doente, não se cansará de passar as noites em claro, segurando o pé deste ser humano que se definha aos poucos. O mujique sabia, que todos estamos sujeitos à morte, e que amenizar a agonia de quem está mais próximo dela, é o mínimo que se pode fazer.
Portanto, não foi em sua vida familiar ou profissional, que Ivan encontrou autenticidade, honestidade e amor, mas com um camponês rude. A leitura do conto, nos faz viver a magnífica experiência de aprendizagem e aceitação da morte. Lendo-o morremos com Ivan Ilitch.

27 dezembro 2004

"A RODA DO MUNDO" - DEFINIÇÕES DE BANTO, IORUBÁ E OUTRAS CULTURAS

Da África os negros trouxeram seus costumes, religiões, trajes, técnicas e idiomas. Quer dizer, os africanos possuíam uma cultura que, através dos escravos, se transmitiu ao Brasil. Por este motivo é que encontramos tantas influências africanas em diversas regiões brasileiras e mesmo algumas contribuições que se estenderam a todo o país. Tal é o caso do samba, dança de origem congo-angolana e que se transformou em um ritmo nacional.

Como os escravos provinham de regiões diversas, também diferentes eram as suas culturas. Os povos de cultura mais adiantados, eram principalmente os dos grupo iorubá. É o caso dos povos que vieram da Nigéria, do Daomé e de Gana. Estes falavam nagô, língua que deixou numerosas palavras no português que falamos no Brasil. Também influenciaram na culinária, especialmente nos pratos da cozinha baiana, como o vatapá, o caruru,o acarajé e o uso do azeite-de-dendê. Como os escravos iorubanos já conheciam o emprego dos metais, sua contribuição foi muito importante na atividade mineradora. Outra influência muito importante e bastante espalhada no Brasil é a que se exerceu sobre os cultos religiosos, os quais aqui, notadamente nas camadas mais humildes da população, resultam da mistura de crenças africanas e cristãs. No filme O Pagador de Promessas, o personagem principal acreditava que Santa Bárbara e Iansã, divindade africana, eram uma só pessoa. O mesmo aconteceu com outros santos da Igreja Católica, que os escravos procuravam confundir com os seus orixás ou deuses.

A festa, bastante popular, em que se distribuem doces às crianças no dia dos santos Cosme e Damião tem origem africana. O costume veio da confusão entre esses santos cristãos e os orixás chamados Ibejis, que protegiam as crianças.

Entre os grupos sudaneses havia alguns que se converteram à religião maometana. São os de cultura negro-maometana e, por isso, muito influenciados pelos árabes. É o caso do traje conhecido como baiana, onde o turbante, os balangandãs, o pano-da-costa indicam contribuições árabes.

Outro grupo muito importante foi o banto. Era formado pelos negros vindos de Angola, Moçambique e do Congo. Além de outras contribuições, eles trouxeram o samba, o batuque, instrumentos musicais, o esporte da capoeira e numerosas palavras.

Foi por influência africana que vários termos e expressões vieram enriquecer a nossa língua. Tal é o caso de caçula, indicando o filho mais moço; careca, mais usado do que o português calvo, ou, cochilar, que praticamente substituiu dormitar.
Enciclopédia Delta de História do Brasil, de Colônia a Nação, vol.6. pág. 1502-1503.

BANTO:
Conjunto de populações da África sul-equatorial (com exceção dos bosquímanos e dos hotentotes), de línguas da mesma família, mas com traços culturais específicos (na África do Sul todos os povos negros são chamados banto, em oposição aos brancos, coloreds e asiáticos). Numerosos foi o contingente de escravos bantos trazidos para o Brasil. A influência por eles exercida sobre costumes, religião e superstições nacionais foi profunda e marcante. Trouxeram muitas lendas, mitos e tradições; sua contribuição folclórica e etnográfica frutificou e reforçou os elementos já existentes no Brasil, através de sua participação entusiástica e predileção viva pelo canto e dança coletivos. Os indígenas também possuíam esse encanto pelas danças de roda, instrumentos de sopro e cantos, mas o negro valorizou essas constantes no seio da sociedade em formação. Não é, pois, privativo e originário do africano tudo quanto recebemos por seu intermédio, mas indubitavelmente foi ele precursor mais poderoso e decisivo, depois do português. O nome bantos compreendia todos os negros africanos que outrora abasteciam o mercado de escravos do Brasil. Sua popularidade afirmou-se no século XVII, nas agremiações e irmandades de Nossa Senhora do Rosário, quando os negros passaram a tomar parte ativa nos autos populares. São bantos os préstitos do maracatu do carnaval pernambucano e as congadas vistas em todo o território brasileiro. A cuíca e o berimbau-de-barriga foram por eles trazidos da África; a capoeira, tanto quanto o complexo etnográfico do samba, também deve a eles sua difusão no Brasil. O ciclo do quibungo, circunscrito à zona litorânea da Bahia, é exemplo de sua contribuição à tradição oral brasileira.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, vol. 3. pág. 631-632

17 dezembro 2004

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A PSICOLOGIA DO ESCOLAR

Temos uma sensação esquisita, quando, já na idade madura, mais uma vez recebemos ordem de fazer uma redação escolar. Mas obedecemos automaticamente, como o velho soldado que, a voz de ‘Sentido!’, deixa cair o que tiver nas mãos e se surpreende com os dedos mínimos apertados de encontro às costuras das calças. É estranho como obedecemos às ordens prontamente, como se nada de particular houvesse acontecido no último meio- século. Mas, na realidade, ficamos velhos nesse intervalo, estamos às vésperas do nosso sexagésimo aniversário e as nossas sensações físicas, bem como o espelho, mostram inequivocamente quanto vela de nossa vida já se queimou.
Talvez há dez anos atrás, pudéssemos ter tido ainda momentos em que, de repente, nos sentíamos novamente jovens. Caminhando pelas ruas de Viena – já de barbas grisalhas e vergados por todas as preocupações da vida familiar – podíamos encontrar inesperadamente algum cavalheiro idoso e bem conservado, ao qual saudávamos quase humildemente, porque o reconhecêramos como um de nossos antigos professores. Mas depois parávamos e refletíamos: ‘Seria realmente ele? Ou apenas alguém muito semelhante? Como parece jovem! E como estamos velhos! Que idade poderá ter hoje? Será possível que os homens que costumavam representar para nós protótipos de adultos, sejam realmente tão pouco mais velhos que nós?’
Em momentos como esse, costumava achar que o tempo presente parecia mergulhar na obscuridade e os anos entre os dez e os dezoito surgiam dos escaninhos da memória, com todas as suas conjeturas e ilusões, suas deformações dolorosas e seus incentivadores sucessos – meus primeiros vislumbres de uma civilização extinta (que, no meu caso, deveria trazer-me tanta compensação quanto tudo o mais nas lutas da vida), meus primeiros contatos com as ciências, entre as quais me parecia aberta a escolha daquela à qual dedicaria os meus indubitavelmente inestimáveis serviços. E pareço relembrar que, durante todo esse tempo, tinha a premonição de uma tarefa futura, até que esta encontrou expressão manifesta na minha redação de despedida da escola, como um desejo de que pudesse, no decurso de minha vida, contribuir com algo para o nosso conhecimento humano.
Mais tarde tornei-me médico – ou antes, psicólogo – e pude criar uma nova disciplina psicológica, conhecida como ‘psicanálise’, que desperta atualmente um interesse excitado e é acolhida com louvores e ataques por médicos e investigadores de países vizinhos e terras distantes e estrangeiras – menos, naturalmente, em nosso próprio país.
Como psicanalista, estou destinado a me interessar mais pelos processos emocionais que pelos intelectuais, mais pela vida mental inconsciente que pela consciente. Minha emoção ao encontrar meu velho mestre-escola adverte-me de que antes de tudo, devo admitir uma coisa: é difícil dizer se o que exerceu mais influência sobre nós e teve importância maior foi a nossa preocupação pelas ciências que nos eram ensinadas, ou pela personalidade de nossos mestres. É verdade, no mínimo, que esta segunda preocupação constituia uma corrente oculta e constante em todos nós e, para muitos, os caminhos das ciências passavam apenas através de nossos professores. Alguns detiveram-se a meio caminho dessa estrada e para uns poucos – porque não admitir outros tantos? – ela foi por causa disso definitivamente bloqueada.
Nós os cortejávamos ou lhes virávamos as costas, imaginávamos neles simpatias e antipatias que provavelmente não existiam, estudávamos seus caráteres e sobre estes formávamos ou deformávamos os nossos. Eles provocavam nossa mais enérgica oposição e forçavam-nos a uma submissão completa; bisbilhotávamos suas pequenas fraquezas e orgulhávamos-nos de sua excelência, seu conhecimento e sua justiça. No fundo, sentíamos grande afeição por eles, se nos davam algum fundamento para ela, embora não possa dizer quantos se davam conta disso. Mas não se pode negar que nossa posição em relação a eles era notável, uma posição que bem pode ter tido sua inconveniências para os interessados. Estávamos, desde o princípio, igualmente inclinados a amá-los e a odiá-los, a criticá-los e a respeitá-los. A psicanálise deu nome de ‘ambivalência’ a essa facilidade para atitudes contraditórias e não tem dificuldade em indicar a fonte de sentimentos ambivalentes desse tipo.
A psicanálise nos mostrou que as atitudes emocionais dos indivíduos para com outras pessoas que são de tão extrema importância para o seu comportamento posterior, já estão estabelecidas numa idade surpreendentemente precoce. A natureza e a qualidade das relações da criança com as pessoas do seu próprio sexo e do sexo oposto, já foi firmada nos primeiros seis anos de sua vida. Ela pode posteriormente desenvolvê-las e transformá-las em certas direções mas não pode mais livrar-se delas. As pessoas a quem se acha assim ligada são os pais e irmãos e irmãs. Todos que vem a conhecer mais tarde tornam-se figuras substitutas desses primeiros objetos de seus sentimentos. (Deveríamos talvez acrescentar aos pais algumas outras pessoas como babás, que dela cuidaram na infância) Essas figuras substitutas podem classificar-se do ponto de vista da criança, segundo provenham do que chamamos as ‘imagos’, do pai, da mãe, dos irmãos e das irmãs, e assim por diante. Seus relacionamentos posteriores são assim obrigados a arcar com uma espécie de herança emocional, defrontam-se com simpatias e antipatias para cuja produção esses próprios relacionamentos pouco contribuíram. Todas as escolhas posteriores de amizade e amor seguem a base das lembranças deixadas por esses primeiros protótipos.
De toda as imagens (imagos de uma infância que, via de regra, não é mais recordada, nenhuma é mais importante para um jovem ou um homem que a do pai. A necessidade orgânica introduz na relação de um homem com o pai uma ambivalência emocional que encontramos expressa de forma mais notável no mito grego do rei Édipo. Um rapazinho esta fadado a amar e a admirar o pai, que lhe parece ser a mais poderosa, bondosa e sábia criatura do mundo. O próprio Deus, em última análise, é apenas uma exaltação dessa imagem do pai, tal como é representado na mente durante a mais tenra infância. Cedo, porém, surge o outro lado da relação emocional. O pai identificado como o perturbador máximo da nossa vida instintiva; torna-se um modelo não apenas a ser imitado, mas também a ser eliminado para que possamos tomar o seu lugar. Daí em diante, os impulsos afetuosos e hostis para com ele persistem lado a lado, muitas vezes, até o fim da vida, sem que nenhum deles seja capaz de anular o outro. É nessa existência concomitante de sentimentos contrários que reside o caráter essencial daquilo que chamamos de ambivalência emocional.
Na segunda metade da infância, dá-se uma mudança na relação do menino com o pai – mudança cuja importância não pode ser exagerada. De seu quarto de criança, o menino começa a vislumbrar o mundo exterior e não pode deixar de fazer descobertas que solapam a alta opinião original que tinha sobre o pai e que apressam o desligamento de seu primeiro ideal. Descobre que o pai não é mais poderoso, sábio e rico dos seres; fica insatisfeito com ele, aprende a criticá-lo, a avaliar o seu lugar na sociedade; então; em regra, faz com que ele pague pesadamente pelo desapontamento que lhe causou. Tudo que há de admirável, e de indesejável na nova geração é determinado por esse desligamento do pai.
É nessa fase do desenvolvimento de um jovem que ele entra em contato com os professores, de maneira que agora podemos entender a nossa relação com eles. Estes homens, nem todos pais na realidade, tornaram-se nossos pais substitutos. Foi por isso que, embora ainda bastante jovens, impressionaram-nos como tão maduros e tão inatingivelmente adultos. Transferidos para eles o respeito e as expectativas ligadas ao pai onisciente de nossa infância e depois começamos a tratá-los como tratávamos nossos pais em casa. Confrontamo-los com a ambivalência que tínhamos adquirido em nossas próprias famílias, e, ajudados por ela, lutamos como tínhamos o hábito de lutar com os nossos pais em carne e osso. A menos que levemos em consideração nossos quartos de crianças e nossos lares, nosso comportamento para com os professores seria não apenas incompreensível, mas também indesculpável.
Como escolares, tivemos outras e um pouco menos importantes experiências com os sucessores de nossos irmãos e irmãs – nossos colegas de escola – mas estas devem ser descritas em outra oportunidade. Numa comemoração do jubileu de nossa escola, é aos professores que nossos pensamentos devem ser dirigidos.
Sigmund Freud. Volume XIII

11 dezembro 2004

"JUDAS, O OBSCURO", DRAMA E TRAGÉDIA DE NOSSA CIVILIZAÇÃO

É indiscutível que o século XIX e o XX vão ambos ficar caracterizados, literariamente, pelo predomínio quase absoluto do romance como gênero literário. Ora, dentro do romance, também é fora de dúvida que a Inglaterra não cede um passo a França na luta pela primazia mundial. Ainda seguindo o mesmo critério de excelência, ninguém negará que, na Inglaterra, Thomas Hardy pertence a uma categoria absolutamente ímpar, junto com Dickens, Meredith, Falsworthy, Lawrence e alguns poucos outros. E com mais certeza ainda se poderá afirmar que, na obra de Thomas Hardy, nenhum romance pode disputar a primazia a “Judas, o Obscuro”.

Resulta, portanto, de tudo isso, que este romance é, inegavelmente, uma das maiores obras-primas que a humanidade possui e um dos livros que mais fielmente podem refletir o drama ou a tragédia que a nossa civilização vive. Toda a problemática do homem moderno, na sua vida íntima, aí está refletida, graças à extraordinária sensibilidade e ao excepcional poder criador de perfeitas incarnações do homem sensível e delicado, bom e puro, que a máquina impiedosa das convenções sociais e dos egoísmos individuais não hesita em esmagar, sem nem sequer desconfiar da desgraça que está ocasionando. Mas, que pode ele fazer senão ser ele mesmo? E pode ela fazer senão ser ela mesma? Judas não só não conseguirá construir o seu futuro, realizar os sonhos de infância, como nada poderá fazer contra o seu destino de perseguido e de eterno ignorado. Desconhecido, incompreendido, enganado, só poderá responder aos golpes da vida com a pureza do seu gesto, tantas vezes repetido, de desvendar inutilmente aos olhos de todos o seu coração de homem. Os que o rodeiam viram então a face, porque suas feridas ferem a eles próprios. Não o compreende, na cegueira dos seus pequenos preconceitos de mulher conscientemente inteligente demais para o seu meio, a criatura que ama e amará a vida interia acima de todas as coisas. E a outra é só mentiras e engodo. Uma e outra dele só se aproximarão para reforçar, de um dos modos mais trágicos a que já nos foi dado assistir, o grito lancinante do poeta contra a mulher: “Tu n’es jamais la soeur de charité, jamais!”.

Por outro lado, o que torna ainda maior e mais classicamente trágico “Judas, o Obscuro” é que essa verdadeira Biografia de um fracassado foi escrita por um dos homens que mais profunda e mais delicada, mais piedosamente, souberam se inclinar sobre o sofrimento humano. Poucos livros serão mais tristes – amargo, nas suas páginas finais, com poucos livros terão sido amargos. Poucos possuem, em tão alto grau, o sentido da tragédia humana, no que ela tem de mais absolutamente insolúvel e eterno. Acompanhando Judas, passo a passo, no seu terrível calvário, é o próprio homem que Thomas Hardy acompanha. É o Absoluto que se atinge, através dessa experiência de homem, e de homem em luta com as realidades sociais de usa época. E é por isso que o valor da obra me parece inexcedível, como inexcedível é a sua importância para a nossa experiência individual.
Octávio de Faria – Tradutor do romance – Judas, o Obscuro – de Thomas Hardy, em Nota Preliminar – ed. Itatiaia – 1958.

29 novembro 2004

A COR DA PELE - COMPREENDENDO A POESIA DO LIVRO A "A RODA DO MUNDO"

O elemento negro no poema não é produto da ornamentação vocabular, o que apenas denotaria certo exotismo tão ao gosto de poetas de linha romântica. O negro como produto da ornamentação vocabular acaba por dar origem a uma poesia (...) que é ‘macumba prá turista’. (...) O elemento negro no poema, íntimo ou histórico, social ou racial, é antes sujeito ou objeto de reflexão do que arabesco de decoração. Enquanto reflexão, apela para a consciência crítica do leitor e para a revolta contra o estado passado e presente.
Para o poeta negro a cor do vocabulário não tem importância, ou não tem importância que a ela emprestam os ‘estudiosos brancos’ da questão negra nos trópicos.
O homem se descobre negro na tessitura da pele, e nesta vê as marcas da escravidão e do degredo, e sente os sofrimentos e a Mãe-Africa.
A cor do vocabulário importa para o folclorista, o antropólogo e o poeta branco. São estes que visam a preservar através de um discurso condescendente, piedoso, cientifico e reparador, os crimes e injustiças cometidas pelos próprios brancos contra os negros, e acrescentemos: contra os índios. São ele que insistem em guardar as relíquias da destruição, num desejo de preservação póstuma por parte da cultura branca dominante.
O poeta negro sabe mais do que a cor das palavras e o valor das relíquias póstumas.
A cor da pele é marca indelével que não se apaga com os bons sentimentos humanitários ou patrióticos, nem com a política paternalista dos governadores ou populistas de oposição. Por isso é que o elemento negro não é relíquia ou simples vocábulo (...).
As referências culturais são vagas e apagadas para o negro no Brasil, ao contrário do que acreditam os nossos cientistas sociais, imbuídos da teoria do mulato tropical. "sua voz fálida/ pelas portas adentro". Tão vagas e apagadas são que elas apenas servem para construir o "preto de alma branca".

Constituído para não ser, o negro teve de incorporar os valores brancos, dados como positivos, para poder aparecer sócio - economicamente. A alma branca é a aparência que resguarda o negro da violência e do anonimato e que baliza as suas ações comedidas e mesquinhas, controladas. Combatendo as falsas aparências, Adão insiste para com que o negro assuma a sua alma negra e vire o que é na pele, um negro, buscando assim uma identidade que escapa às pressões da sociedade cordial.

Nomear o aviltamento do negro pela escravidão é a única maneira de poder construir o negro como não ser no passado e como identidade social a ser construída no presente. Tudo isso sem as peias da ideologia da cordialidade.

Vale Quanto Pesa – A cor da Pele – Silviano Santiago – Paz e Terra – pág. 121-125

16 novembro 2004

AS IDÉIAS FORA DO LUGAR - UM ENSAIO PARA SE ENTENDER MELHOR O LIVRO "MINHA FORMAÇÃO" DE JOAQUIM NABUCO


Roberto Schwartz
Toda ciência tem princípios, de que deriva o seu sistema. Um dos princípios da Economia Política é o trabalho livre. Ora, no Brasil domina o fato "impolítico e abominável" da escravidão.
Este argumento – resumo de um panfleto liberal, contemporâneo de Machado de Assis – põe fora o Brasil do sistema da ciência. Estávamos aquém da realidade a que esta se refere; éramos antes um fato moral, "impolítico e abominável". Grande degradação, considerando-se que a ciência eram as Luzes, o Progresso, a Humanidade etc. Para as artes, Nabuco expressa um sentimento comparável quando protesta contra o assunto escravo no teatro de Alencar: "Se isso ofende o estrangeiro, como não humilha o brasileiro!". Outros autores naturalmente fizeram o raciocínio inverso. Uma vez que não se referem à nossa realidade, ciência econômica e demais ideologias liberais e que são, elas sim, abomináveis, impolíticas e estrangeiras, além de vulneráveis. "Antes bons negros da costa da África para felicidade sua e nossa, a despeito de toda a mórbida filantropia britânica, que, esquecida de sua própria casa, deixa morrer de fome o pobre irmão branco, escravo sem senhor que dele se compadeça, e hipócrita ou estólida chora, exposta ao ridículo da verdadeira filantropia, o fado de nosso escravo feliz".
Cada um a seu modo, estes autores refletem a disparidade entre a sociedade brasileira, escravista, e as idéias do liberalismo europeu. Envergonhando a uns, irritando a outros, que insistem na sua hipocrisia, estas idéias – em que gregos e troianos não reconhecem o Brasil – são referências para todos. Sumariamente está montada uma comédia ideológica, diferente da européia. É claro que a liberdade do trabalho, a igualdade perante a lei e, de modo geral, o universalismo eram ideologia na Europa também; mas lá correspondiam às aparências, encobrindo o essencial a exploração do trabalho. Entre nós, as mesmas idéias seriam falsas num sentido diverso, por assim dizer, original. A Declaração dos Direitos do Homem, por exemplo, transcrita em parte na Constituição Brasileira de 1824, não só não escondia nada, como tornava mais abjeto o instituto da escravidão. A mesma coisa para a professada universalidade dos princípios, que transformava em escândalo a prática geral do favor. Que valiam, nestas circunstâncias, as grandes abstrações burguesas que usávamos tanto? Não descreviam a existência – mas nem só disso vivem as idéias. Refletindo em direção parecida, Sérgio Buarque observa: "Trazendo de países distantes nossas formas de vida, nossas instituições e nossa visão do mundo e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos uns desterrados em nossa terra". Essa impropriedade de nosso pensamento, que não é acaso, como se verá, foi de fato uma presença assídua, atravessando e desequilibrando, até no detalhe, a vida ideológica do Segundo Reinado. Freqüentemente inflada, ou rasteira, ridícula, ou crua, e só raramente justa no tom, a prosa literária do tempo é uma das muitas testemunhas disso.
Embora sejam lugar-comum em nossa historiografia, as razões desse quadro foram pouco estudadas em seus efeitos. Como é sabido, éramos um país agrário e independente, dividido em latifúndios, cuja produção dependia do trabalho escravo por um lado, e por outro do mercado externo. Mais ou menos diretamente, vêm daí as singularidades que expusemos. Era inevitável, por exemplo, a presença entre nós do raciocínio econômico burguês – a prioridade do lucro, com seus corolários sociais – uma vez que dominava no comércio internacional, para onde a nossa economia era voltada. A prática permanente das transações escolava, neste sentido, quando menos uma pequena multidão. Além do que, havíamos feito a Independência há pouco, em nome de idéias francesas, inglesas e americanas, variadamente liberais, que assim faziam parte de nossa identidade nacional. Por outro lado, com igual fatalidade, este conjunto ideológico iria chocar-se contra a escravidão e seus defensores, e o que é mais, viver com eles. No plano, das convicções, a incompatibilidade é clara, e já vimos exemplos. Mas também no plano prático ela se fazia sentir. Sendo uma propriedade, um escravo pode ser vendido, mas não despedido. O trabalhador livre, nesse ponto, dá mais liberdade seu patrão, além de imobilizar menos, capital. Este aspecto – um entre muitos – indica o limite que a escravatura opunha à racionalização produtiva. Comentando o que vira numa fazenda, um viajante escreve: "não há especialização do trabalho, porque se procura economizar a mão-de-obra". Ao citar a passagem, Fernando Henrique Cardoso observa que "economia" não se destina aqui, pelo contexto, a fazer o trabalho num mínimo de tempo, mas num máximo. É preciso espichá-lo, a fim de encher e disciplinar o dia do escravo. O oposto exato do que era moderno fazer. Fundada na violência e na disciplina militar, a produção escravista dependia da autoridade, mais que da eficácia. O estudo racional do processo produtivo, assim como a sua modernização continuada, com todo o prestígio que lhes advinha da revolução que ocasionavam na Europa, eram sem propósito no Brasil. Para complicar ainda o quadro, considere-se que o latifúndio escravista havia sido na origem um empreendimento do capital comercial, e que portanto o lucro fora desde sempre o seu pivô. Ora, o lucro como prioridade subjetiva e comum às formas antiquadas do capital e às mais modernas. De sorte que os incultos e abomináveis escravistas até certa data – quando esta forma de produção veio a ser menos rentável que o trabalho assalariado – foram no essencial, capitalistas mais conseqüentes do que nossos defensores de Adam Smith, que no capitalismo achavam antes que tudo a liberdade. Está-se vendo que para a vida intelectual o nó estava armado. Em matéria de racionalidade, os papéis se embaralhavam e trocavam normalmente: a ciência era fantasia e moral, o obscurantismo era realismo e responsabilidade, a técnica não era prática, o altruísmo implantava a mais-valia etc. E, de maneira geral, na ausência do interesse organizado da escravaria, o confronto entre humanidade e inumanidade, por justo que fosse, acabava encontrando uma tradução mais rasteira no conflito entre dois modos de empregar os capitais do qual era a imagem que convinha a uma das partes.
Impugnada a todo instante pela escravidão a ideologia liberal, que era a das jovens nações emancipadas da América, descarrilhava. Seria fácil deduzir o sistema de seus contra-sensos, todos verdadeiros, muitos dos quais agitaram a consciência teórica e moral de nosso século XIX. Já vimos uma coleção deles. No entanto, estas dificuldades permaneciam curiosamente inessenciais. O teste da realidade não parecia importante.
É como se coerência e generalidade não pesassem muito, ou como se a esfera da cultura ocupasse uma posição alterada, cujos critérios fossem outros – mas outros em relação a quê? Por sua mera presença, a escravidão indicava a impropriedade das idéias liberais; o que entretanto é menos que orientar-lhes o movimento. Sendo embora a relação produtiva fundamental, a escravidão não era o nexo efetivo da vida ideológica. A chave desta era diversa. Para descrevê-la é preciso retomar o país como todo. Esquematizando, pode-se dizer que a colonização produziu, com base no monopólio da terra, três classes de população: o latifundiário, o escravo e o "homem livre", na verdade dependente. Entre os primeiros dois a relação é clara, é a multidão dos terceiros que nos interessa. Nem proprietários nem proletários seu acesso à vida e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande. O agregado é a sua caricatura. O favor é, portanto, o mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que têm. Note-se ainda que entre estas duas classes é que irá acontecer a vida ideológica, regida, em conseqüência, por este mesmo mecanismo. Assim, com mil formas e nomes, o favor atravessou e afetou no conjunto a existência nacional, ressalvada sempre á relação produtiva de base, esta assegurada pela força. Esteve presente por toda parte, combinando-se às mais variadas atividades, mais e menos afins dele, como administração, política, indústria, comércio, vida urbana, Corte etc. Mesmo profissões liberais, como a medicina, ou qualificações operárias, como a tipografia, que, na acepção européia, não deviam nada a ninguém, entre nós eram governadas por ele. E assim como o profissional dependia do favor para o exercício de sua profissão, o pequeno proprietário depende dele para a segurança de sua propriedade, e o funcionário para o seu posto. O favor é a nossa mediação quase universal – e sendo mais simpático do que o nexo escravista, a outra relação que a colônia nos legara, é compreensível que os escritores tenham baseado nele a sua interpretação do Brasil, involuntariamente disfarçando a violência, que sempre reinou na esfera da produção.
O escravismo desmente as idéias liberais; mais insidiosamente o favor, tão incompatível com elas quanto o primeiro, as absorve e desloca, originando um padrão, particular. O elemento de arbítrio, o jogo fluido de estima e auto-estima a que o favor submete o interesse material, não podem ser integralmente racionalizados. Na Europa, ao atacá-los, o universalismo visara o privilégio feudal. No processo de sua afirmação histórica, a civilização burguesa postulara a autonomia da pessoa, a universalidade da lei, a cultura desinteressada, a remuneração objetiva, a ética do trabalho etc. contra as prerrogativas do Ancien Regime. O favor, ponto por ponto, pratica a dependência dá da pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada, remuneração, e serviços pessoais. Entretanto, não estávamos para a Europa como o feudalismo para o capitalismo, pelo contrário, éramos seus tributários em toda linha, além de não termos sido propriamente feudais – a colonização é um feito do capital comercial. No fastígio em que estava ela, Europa, e na posição relativa em que estávamos nós, ninguém no Brasil teria a idéia e principalmente a força de ser, digamos, um Kant do favor, para bater-se contra o outro. De modo que o confronto entre esses princípios tão antagônicos resultava desigual: no campo dos argumentos prevaleciam com facilidade, ou melhor, adotávamos sofregamente os que a burguesia européia tinha elaborado contra arbítrio e escravidão; enquanto na prática, geralmente dos próprios debatedores, sustentado pelo latifúndio, o favor reafirmava sem descanso os sentimentos e as noções em que implica. O mesmo se passa no plano das instituições, por exemplo com burocracia e justiça, que embora regidas pelo clientelismo, proclamavam as formas e teorias do estado burguês moderno. Além dos naturais debates, este antagonismo produziu, portanto, uma coexistência estabilizada – que interessa estudar. Aí a novidade: adotadas as idéias e razões européias, elas podiam servir e muitas vezes serviram de justificação, nominalmente "objetiva", para o momento de arbítrio que é da natureza do favor. Sem prejuízo de existir, o antagonismo se desfaz em fumaça e os incompatíveis saem de mãos dadas. Esta recomposição e capital. Seus efeitos são muitos, e levam longe em nossa literatura. De ideologia que havia sido – isto é, engano involuntário e bem fundado nas aparências – o liberalismo passa, na falta de outro termo, a penhor intencional duma variedade de prestígios com que nada tem a ver. Ao legitimar o arbítrio por meio de alguma razão "racional", o favorecido conscientemente engrandece a si e ao seu benfeitor, que por sua vez não vê, nessa era de hegemonia das razões, motivo para desmenti-lo. Nestas condições, quem acreditava na justificação? A que aparência correspondia? Mas justamente, não era este o problema, pois todos reconheciam – e isto sim era importante – a intenção louvável, seja do agradecimento, seja do favor. A compensação simbólica podia ser um pouco desafinada, mas não era mal­agradecida. Ou por outra, seria desafinada em relação ao Liberalismo, que era secundário, e justa em relação ao favor, que era principal. E nada melhor, para dar lustre às pessoas e à sociedade que formam, do que as idéias mais ilustres do tempo, no caso as européias. Neste contexto, portanto, as ideologias não descrevem sequer falsamente a realidade, e não gravitam segundo uma lei que lhes seja própria – por isso as chamamos de segundo grau. Sua regra é outra, diversa da que denominam; é da ordem do relevo social, em detrimento de sua intenção cognitiva e de sistema. Deriva sossegadamente do óbvio, sabido de todos – da inevitável "superioridade" da Europa – e liga-se ao momento expressivo, de auto-estima e fantasia, que existe no favor. Neste sentido dizíamos que o teste da realidade e da coerência não parecia, aqui, decisivo, sem prejuízo de estar sempre presente como exigência reconhecida, evocada ou suspensa conforme a circunstância. Assim, com método, atribui-se independência à dependência, utilidade ao capricho, universalidade às exceções, mérito ao parentesco, igualdade ao privilégio etc. Combinando-se à prática de que, em princípio, seria a crítica, o Liberalismo fazia com que o pensamento perdesse o pé. Retenha-se no entanto, para analisarmos depois, a complexidade desse passo: ao tornarem-se despropósito, estas idéias deixam também de enganar.
É claro que esta combinação foi uma entre outras. Para o nosso clima ideológico, entretanto, foi decisiva, além de ser aquela em que os problemas se configuram da maneira mais completa e diferente. Por agora bastem alguns aspectos. Vimos que nela as idéias da burguesia – cuja grandeza sóbria remonta ao espírito público e racionalista da Ilustração- tomam função de ... ornato e marca de fidalguia: atestam e festejam a participação numa esfera augusta, no caso a da Europa que se ... industrializa. O qüiproquó das idéias não podia ser maior. A novidade no caso não está no caráter ornamental de saber e cultura, que é da tradição colonial e ibérica; está na dissonância propriamente incrível que ocasionam o saber e a cultura de tipo "moderno" quando postos neste contexto. São inúteis como um berloque? São brilhantes como uma comenda? Serão a nossa panacéia? Envergonham-nos diante do mundo? O mais certo é que nas idas e vindas de argumento e interesse todos estes aspectos tivessem ocasião de se manifestar, de maneira que na consciência dos mais atentos deviam estar ligados e misturados. Inextricavelmente, a vida ideológica degradava e condecorava os seus participantes, entre os quais muitas vezes haveria clareza disso. Tratava-se, portanto, de uma combinação instável, que facilmente degenerava em hostilidade e crítica as mais acerbas. Para manter-se precisa de cumplicidade permanente, cumplicidade que a prática do favor tende a garantir. No momento da prestação e da contraprestação – particularmente no instante-chave do reconhecimento recíproco – a nenhuma das partes interessa denunciar a outra, tendo embora a todo instante os elementos necessários para fazê-lo. Esta cumplicidade sempre renovada tem continuidades sociais mais profundas, que lhe dão peso de classe: no contexto brasileiro, o favor assegurava às duas partes, em especial à mais fraca, de que nenhuma e escrava. Mesmo o mais miserável dos favorecidos via reconhecida nele, no favor, a sua livre pessoa, o que transformava prestação e contraprestação, por modestas que fossem, numa cerimônia de superioridade social, valiosa em si mesma. Lastreado pelo infinito de dureza e degradação que esconjurava – ou seja a escravidão, de que as duas partes beneficiam e timbram em se diferençar – este reconhecimento é de uma conivência sem fundo, multiplicada, ainda, pela adoção do vocabulário burguês da igualdade, do mérito, do trabalho; da razão. Machado de Assis será mestre nestes meandros. Contudo veja-se também outro lado. Imersos que estamos, ainda hoje, no universo do Capital, que não chegou a tomar forma clássica no Brasil, tendemos a ver esta combinação como inteiramente desvantajosa para nós, composta só de defeitos. Vantagens não há de ter tido; mas para apreciar devidamente a sua complexidade considere-se que as idéias da burguesia, a princípio voltadas contra o privilégio, a partir de 1848 se haviam tornado apologética: a vaga das lutas sociais na Europa mostrara que a universalidade disfarça antagonismos de classe. Portanto, para bem lhe reter o timbre ideológico é preciso considerar que o nosso discurso impróprio era oco também quando usado propriamente. Note-se, de passagem, que este padrão iria repetir-se no séc. XX, quando por várias vezes juramos, crentes de nossa modernidade, segundo as ideologias mais rotas da cena mundial. Para a literatura, como veremos, resulta daí um labirinto singular, uma espécie de oco dentro do oco. Ainda aqui, Machado será o mestre.
Em suma, se insistimos no viés que escravismo e favor introduziram nas idéias do tempo, não foi para as descartar, mas para descrevê-las enquanto enviesadas, – fora de centro em relação à exigência que elas mesmas propunham, e reconhecivelmente nossas, nessa mesma qualidade. Assim, posto de parte o raciocínio sobre as causas, resta na experiência aquele "desconcerto" que foi o nosso ponto de partida: a sensação que o Brasil dá de dualismo e factício – contrastes rebarbativos, desproporções, disparates, - anacronismos, contradições, conciliações e o que for – combinações que o Modernismo, o Tropicalismo e a Economia Política nos ensinaram a considerar. Não faltam exemplos. Vejam-se alguns, menos para analisá-los, que para indicar a ubiqüidade do quadro e a variação de que é capaz. Nas revistas do tempo, sendo grave ou risonha, a apresentação do número inicial é composta para baixo e falsete: primeira parte, afirma-se o propósito redentor da imprensa, na tradição de combate da Ilustração; a grande seita fundada por Gutenberg afronta a indiferença geral, nas alturas o condor e a mocidade entrevêem o futuro, ao mesmo tempo que repelem o passado e os preconceitos, enquanto a tocha regeneradora do Jornal desfaz as trevas da corrupção. Na segunda parte, conformando-se às circunstâncias, as revistas declaram a sua disposição cordata, de "dar a todas as classes em geral e particularmente à honestidade das famílias, um meio de deleitável instrução e de ameno recreio". A intenção emancipadora casa-se com charadas, união nacional, figurinos, conhecimentos gerais e folhetins Caricatura desta seqüência são os versinhos que servem de epígrafe à Marmota na Corte: "Eis a Marmota/ Bem variada/ P’ra ser de todos/ Sempre estimada.// Fala a verdade,/ Diz o que sente,/ Ama e respeita/ A toda gente." Se, noutro campo, raspamos um pouco os nossos muros, mesmo efeito de coisa compósita: "A transformação arquitetônica era superficial. Sobre as paredes de terra, erguidas por escravos, pregavam-se papéis decorativos europeus ou aplicavam-se pinturas, de forma a criar a ilusão de um ambiente novo, como os interiores das residências dos países em industrialização. Em certos exemplos, o fingimento atingia o absurdo: pintavam-se motivos arquitetônicos greco-romanos – pilastras, arquitraves, colunatas, frisas etc. – com perfeição de perspectiva e sombreamento, sugerindo urna ambientação neoclássica jamais realizável com as técnicas e materiais disponíveis no local. Em outros, pintavam-se janelas nas paredes, com vistas sobre ambientes do Rio de Janeiro, ou da Europa, sugerindo um exterior longínquo, certamente diverso do real, das senzalas, escravos e terreiros de serviço". O trecho refere-se a casas rurais na Província de São Paulo, segunda metade do séc. XIX. Quanto à corte: "A transformação atendia à mudança dos costumes, que incluíam agora o uso de objetos mais refinados, de cristais, louças e porcelanas, e formas de comportamento cerimonial, como maneiras formais de servir à mesa. Ao mesmo tempo conferia ao conjunto, que procurava reproduzir a vida das residências européias, uma aparência de veracidade. Desse modo, os estratos sociais que mais benefícios tiravam de um sistema econômico baseado na escravidão e destinado exclusivamente à produção agrícola procuravam criar, para seu uso, artificialmente, ambientes com características urbanas e européias, cuja operação exigia o afastamento dos escravos e onde tudo ou quase tudo era produto de importação". Ao vivo esta comédia está nos notáveis capítulos iniciais do Quincas Borba. Rubião, herdeiro recente, é constrangido a trocar o seu escravo crioulo por um cozinheiro francês e um criado espanhol, perto dos quais não fica à vontade. Além de ouro e prata, seus metais do coração, aprecia agora as estatuetas de bronze – um Fausto e um Mefistófeles – que são também de preço. Matéria mais solene, mas igualmente marcada pelo tempo, é a letra de nosso hino à República, escrita em 1890, pelo poeta decadente Medeiros e Albuquerque. Emoções progressistas a que faltava o natural: "Nós nem cremos que escravos outrora /Tenha havido em tão nobre país!" (outrora é dois anos antes, uma vez que a Abolição é de 88). Em 1817, numa declaração do governo revolucionário de Pernambuco, mesmo timbre, com intenções opostas: "Patriotas, vossas propriedades inda as mais opugnantes ao ideal de justiça serão sagradas". Refere-se aos rumores de emancipação, que era preciso desfazer, para acalmar os proprietários. Também a vida de Machado de Assis é um exemplo, na qual se sucedem rapidamente o jornalista combativo, entusiasta das "inteligências proletárias, das classes ínfimas", autor de crônicas e quadrinhas comemorativas, por ocasião do casamento das princesas imperiais, e finalmente o Cavaleiro e mais tarde Oficial da Ordem. da Rosa. Contra isso tudo vai sair a campo Sylvio Romero. "É mister fundar uma nacionalidade consciente de seus méritos e defeitos, de sua força e de seus delíquios, e não arrumar um pastiche, um arremedo de judas das festas populares que só serve para vergonha nossa aos olhos do estrangeiro. (...) Só um remédio existe para tamanho desideratum: – mergulharmo-nos na corrente vivificante das idéias naturalistas e monísticas, que vão transformando o velho mundo". À distancia é tão clara que tem graça a substituição de um arremedo por outro. Mas é também dramática, pois assinala quanto era alheia a linguagem na qual se expressava, inevitavelmente, o nosso desejo de autenticidade. Ao pastiche romântico iria suceder o naturalista. Enfim, nas revistas, nos costumes, nas casas, nos símbolos nacionais, nos pronunciamentos de revolução, na teoria e onde mais for, sempre a mesma composição "arlequinal", para falar com Mário de Andrade: o desacordo entre a representação e o que, pensando bem, sabemos ser o seu contexto. – Consolidada por seu grande papel no mercado internacional, e mais tarde na política interna, a combinação de latifúndio e trabalho compulsório atravessou impávida a Colônia, Reinados e Regências, Abolição, a Primeira República, e hoje mesmo é matéria de controvérsia e tiros. O ritmo de nossa vida ideológica, no entanto, foi outro, também ele determinado pela dependência do país: à distância acompanhava os passos da Europa. Note-se, de passagem, que é a ideologia da independência que vai transformar em defeito esta combinação; bobamente, quando insiste na impossível autonomia cultural, e profundamente, quando reflete sobre o problema. Tanto a eternidade das relações sociais de base quanto a lepidez ideológica das "elites" eram parte a parte que nos toca - da gravitação deste sistema por assim dizer solar, e certamente internacional, que é o capitalismo. Em conseqüência, um latifúndio pouco modificado viu passarem as maneiras barroca, neoclássica, romântica, naturalista, modernista e outras, que na Europa acompanharam e refletiram transformações imensas na ordem social. Seria de supor que aqui perdessem a justeza, o que em parte se deu: No entanto, vimos que e inevitável este desajuste, ao qual estávamos condenados pela máquina do colonialismo, e ao qual, para que já fique indicado o seu alcance mais que nacional, estava condenada a mesma máquina quando nos produzia. Trata-se enfim de segredo mui conhecido, embora precariamente teorizado. Para as artes, no caso, a solução parece mais fácil, pois sempre houve modo de adorar, citar, macaquear, saquear, adaptar ou devorar, estas maneiras e modas todas, de modo que refletissem, na sua falha, a espécie de torcicolo cultural em que nos reconhecemos. Mas, voltemos atrás. Em resumo, as idéias liberais não se podiam praticar, sendo ao mesmo tempo indescartáveis. Foram postas numa constelação especial, uma constelação prática, a qual formou sistema e não deixaria de afetá-las. Por isso, pouco ajuda insistir na sua clara falsidade. Mais interessante é acompanhar-lhes o movimento, de que ela, a falsidade, é parte verdadeira. Vimos o Brasil, bastião da escravatura, envergonhado diante delas – as idéias mais adiantadas do planeta, ou quase, pois o socialismo já vinha à ordem do dia – e rancoroso, pois não serviam para nada. Mas eram adotadas também com orgulho, de forma ornamental, como prova de modernidade e distinção. E naturalmente foram revolucionárias quando pesaram no Abolicionismo. Submetidas à influência do lugar, sem perderem as pretensões de origem, gravitavam segundo uma regra nova, cujas graças, desgraças, ambigüidades e ilusões eram também singulares. Conhecer o Brasil era saber destes deslocamentos, vividos e praticados por todos como uma espécie de fatalidade, para os quais, entretanto, não havia nome, pois a utilização imprópria dos nomes era a sua natureza. Largamente sentido como defeito bem conhecido, más pouco pensado, este sistema de impropriedades decerto rebaixava o cotidiano da vida ideológica e diminuía as chances da reflexão. Contudo facilitava o ceticismo em face das ideologias, por vezes bem completo e descansado, e compatível aliás com muito verbalismo. Exacerbado um nadinha, dará na força espantosa da visão de Machado de Assis. Ora, o fundamento deste ceticismo não está seguramente na exploração refletida dos limites do pensamento liberal. Está, se podemos dizer assim, no ponto de partida intuitivo, que nos dispensava do esforço. Inscritas num sistema que não descrevem nem mesmo em aparência, as idéias da burguesia viam infirmada já de início, pela evidência diária, a sua pretensão de abarcar a natureza humana. Se eram aceitas, eram-no por razões que elas próprias não podiam aceitar. Em lugar de horizonte, apareciam sobre um fundo mais vasto, que as relativiza: as idas e vindas de arbítrio e favor. Abalava-se na base a sua intenção universal. Assim, o que na Europa seria verdadeira façanha da critica, entre nós podia ser a singela descrença de qualquer pachola, para quem utilitarismo, egoísmo, formalismo e o que for, são uma roupa entre outras, muito da época mas desnecessariamente apertada. Está-se vendo que este chão social é de conseqüência para a história da cultura: uma gravitação complexa, em que volta e meia se repete uma constelação na qual a ideologia hegemônica do Ocidente faz figura derrisória, de mania entre manias. O que é um modo, também, de indicar o alcance mundial que têm e podem ter as nossas esquisitices nacionais. Algo de comparável, talvez, ao que se passava na literatura russa. Diante desta, ainda os maiores romances do realismo francês fazem impressão de ingênuos. Por que razão? Justamente, é que a despeito de sua intenção universal, a psicologia do egoísmo racional, assim como a moral formalista, faziam no Império Russo efeito de uma ideologia "estrangeira e portanto localizada e relativa. De dentro de seu atraso histórico, o país impunha ao romance burguês um quadro mais complexo. A figura caricata do ocidentalizante, francófilo ou germanófilo, de nome freqüentemente alegórico e ridículo, os ideólogos do progresso, do liberalismo, da razão, eram tudo formas de trazer à cena a modernização que acompanha o Capital. Estes homens esclarecidos mostram-se alternadamente lunáticos, ladrões, oportunistas, crudelíssimos, vaidosos, parasitas etc. O sistema de ambigüidades assim ligadas ao uso local do ideário burguês – uma das chaves do romance russo – pode ser comparado àquele que descrevemos para o Brasil. São evidentes as razões sociais da semelhança. Também na Rússia a modernização se perdia na imensidão do território e da inércia social, entrava em choque com a instituição servil e com seus restos, – choque experimentado como inferioridade e vergonha nacional por muitos, sem prejuízo de dar a outros um critério para medir o desvario do progressismo e do individualismo que o Ocidente impunha e impõe ao mundo. Na exacerbação deste confronto, em que ó progresso é uma desgraça e o atraso uma vergonha, está uma das raízes profundas da literatura russa. Sem forçar em demasia uma comparação desigual, há em Machado – pelas razões que sumariamente procurei apontar – um veio semelhante, algo de Gogol, Dostoievski, Gontcharov, Tchecov, e de outros talvez, que não conheço. Em suma, a própria desqualificação do pensamento entre nós, que tão amargamente sentíamos, e que ainda hoje asfixia o estudioso do nosso século XIX, era uma ponta, um ponto nevrálgico por onde passa e se revela a história mundial.
Ao longo de sua reprodução social, incansavelmente Brasil põe e repõe idéias européias , sempre em sentido impróprio. É nesta qualidade que elas serão matéria e problema para a literatura. O escritor pode não saber disso, nem precisa, para usá-las. Mas só alcança uma ressonância profunda e afinada caso lhes sinta, registre e desdobre – ou evite – o descentramento e a desafinação. Se há um número indefinido de maneiras de fazê-lo, são palpáveis e definíveis as contravenções. Nestas registra-se, como ingenuidade, tagarelice, estreiteza, servilismo, grosseria etc., a eficácia específica e local de uma alienação de braços longos – a falta de transparência social, imposta pelo nexo colonial e pela dependência que veio continuá-lo. Isso posto, o leitor pouco ficou sabendo de nossa história literária ou geral, e não situa Machado de Assis. De que lhe servem então estas páginas? Em vez do "panorama" e da idéia correlata de impregnação pelo ambiente, sempre sugestiva e verdadeira, mas sempre vaga e externa, tentei uma solução diferente: especificar um mecanismo social, na forma em que ele se torna elemento interno e ativo da cultura; uma dificuldade inescapável – tal como o Brasil a punha e repunha aos seus homens cultos, no processo mesmo de sua reprodução social. Noutras palavras, uma espécie de chão histórico, analisado, da experiência intelectual. Pela ordem, procurei ver na gravitação das idéias um movimento que nos singularizava. Partimos da observação comum, quase uma sensação, de que no Brasil as idéias estavam fora de centro, em relação ao seu uso europeu. E apresentamos uma explicação histórica para esse deslocamento, que envolvia as relações de produção e parasitismo no país, a nossa dependência econômica e seu par, a hegemonia intelectual da Europa, revolucionada pelo Capital. Em suma, para analisar uma originalidade nacional, sensível no dia-a-dia, fomos levados a refletir sobre o processo da colonização em seu conjunto, que é internacional. O tic-tac das conversões e reconversões de liberalismo e favor é o efeito local e opaco de um mecanismo planetário. Ora, a gravitação cotidiana das idéias e das perspectivas práticas é a matéria imediata e natural da literatura, desde o momento em que as formas fixas tenham perdido a sua vigência para as artes. Portanto, é o ponto de partida também do romance, quanto ais do romance realista. Assim, o que estivemos descrevendo é a feição exata com que a História mundial, na forma estruturada e cifrada de seus resultados locais, sempre repostos, passa para dentro da escrita, em que agora influi pela via interna – o escritor saiba ou não, queira ou não queira. Noutras palavras, definimos um campo vasto e heterogêneo, mas estruturado, que ê resultado histórico, e pode ser origem artística. Ao estudá-lo, vimos que difere do europeu, usando embora o seu vocabulário. Portanto a própria diferença, a comparação e a distância fazem parte de sua definição. Trata-se de uma diferença interna – o descentramento de que tanto falamos – em que as razões nos aparecem ora nossas, ora alheias, a uma luz ambígua, de efeito incerto. Resulta uma química também singular, cujas afinidades e repugnâncias acompanhamos e exemplificamos um pouco. É natural, por outro lado, que esse material proponha problemas originais à literatura que dependa dele. Sem avançarmos por agora, digamos apenas que, ao contrário do que geralmente se pensa, a matéria do artista mostra assim não ser informe: é historicamente formada, e registra de algum modo o processo social a que deve a sua existência. Ao formá-la, por sua vez, o escritor sobrepõe uma forma a outra forma, e é da felicidade desta operação, desta relação com a matéria pré­formada – em que imprevisível dormita a História – que vão depender profundidade, força, complexidade dos resultados. São relações que nada têm de automático, e veremos no detalhe quanto custou, entre nós, acertá-las para o romance. vê-se, variando-se ainda uma vez o mesmo tema, que embora lidando com o modesto tic-tac de nosso dia-a-dia, e sentado à escrivaninha num ponto qualquer do Brasil, o nosso romancista sempre teve como matéria, que ordena como pode, questões da história mundial; e que não as trata, se as tratar diretamente.
Bibliografia:
Da Introdução ao ensaio sobre Machado de Assis "Ao Vencedor As Batatas", Livraria Duas Cidades.