"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor". João Guimarães Rosa

28 junho 2007

CITAÇÕES

“Uma fronteira não é o ponto onde algo termina, mas, como os gregos reconheceram, a fronteira é o ponto a partir do qual algo começa a se fazer presente.”

Martim Heidegger, OLHAR, p. 194

25 abril 2007

FESTA PARA PÁ E LUTO PARA CÁ

Nós aqui no Brasil, diante de diversos problemas, muito deles herdados do país que inspirou o Chico na composição de "Tanto Mar" (abaixo), estamos precisando fazer a nossa própria festa de libertação do povo brasileiro, na construção de uma nação próspera e sem tantas discrepâncias sociais. Que tenhamos uma elite (seja financeira, industrial, comercial...), mas uma que se preocupa com o desenvolvimento e o bem estar do país; que tenhamos trabalhadores, mas também comprometidos com o mesmo ideal. Quero que seja "primavera" aqui. São 507 anos, que comemoramos no dia 22 de abril, de invernos tenebrosos de EXPLORAÇÃO. Aqui não se comemora muito essas datas, ainda não somos um povo, infelizmente, não temos orgulho de nosso país e sim vergonha. Os 507 anos, nem se quer foi lembrado pelo povo, pois estamos preocupados com mais um escândalo de corrupção e acompanhando as mesmas estratégias de canalhas corporativistas, para que nenhum dos suspeitos seja punido, da mesma forma que tantos outros do poder legistativo e do executivo sairam ilesos de um escândalo que ainda nem esfriou. As instituições públicas aqui, estão cada vez mais corruptas. Não se discute melhorar nada, parece que o projeto de povo se encontra anestesiado vendo os atuais abutres criando estrátegias para manter um sistema doente que impede que sejamos um povo brasileiro. Estamos carentes, será que ainda tem um pouco de alecrim para nos mandar?



1975
(primeira versão)*

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

* Letra original,vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975.


Segunda versão - 1978
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
CHICO BUARQUE DE HOLANDA

25 DE ABRIL EM PORTUGAL

FOI BONITA A FESTA, PÁ

"Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente nalgum canto do jardim"
(CHICO BUARQUE DE HOLANDA)

11 abril 2007

O PARASITISMO HUMANO

Retomo, depois de algum tempo sem postar, as minhas impressões sobre as pessoas, o mundo e os objetos que vinha registrando nesse espaço já há algum tempo.

Ultimamente venho tentando com grande esforço, por circunstâncias muito particulares, observar o comportamento de pessoas que tendem para um grau elevado daquilo que Machado de Assis, por meio do Bentinho, ao se referir injustamente à Capitu, chamou de “dissimulada” (encobrir, ocultar com astúcia; fingir; disfarçar).

Pessoas com esse perfil são extremamente meticulosas em suas decisões, pois não querem ceder nada daquilo que inicialmente planejaram como sendo o fim último de suas ações, sejam elas gerais ou específicas, buscando o mínimo de trabalho para si e explorando o máximo de outras pessoas. O pior defeito moral desse tipo de indivíduo, é que normalmente este fim último, só interessa a eles próprios. No senso comum, seriam designados como aqueles que são capazes de vender até a mãe em proveito próprio. Quando percebem alguma resistência para atingir o que almejam, dão voltas, feitos gatos rabugentos até conseguirem do outro o que eles desejam.

Uma descrição mais simplista, porém esclarecedora, sobre a forma e a tipologia dos seus comportamentos é o que a biologia definiu como parasitas (comensal), ou seja, organismo que vive à custa de outro (o hospedeiro); pessoa que vive à custa de outrem; que vive à custa alheia. Em alguns casos, o parasita suga toda a vitalidade do hospedeiro, inviabilizando a sua sobrevivência. Lembrando que o Bruxo de Cosme Velho, também explorou bastante esta conotação na descrição comportamental e psicológica de alguns de seus personagens.

No mais, espero que tenha estômago para sobreviver a essa espécie que vinha tentando evitar de maiores proximidades comigo, mas como em tudo sempre há um lado bom, posso aprender bastante, principalmente com as artimanhas efetuadas por esses organismos, para atingirem os objetivos habilmente premeditados.

Dica de leitura:

“Viana era um parasita consumado, cujo estômago tinha mais capacidade que preconceitos, menos sensibilidade que disposições. Não se suponha, porém, que a pobreza o obrigasse ao ofício; possuía alguma coisa que herdara da mãe, e conservara religiosamente intato, tendo até então vivido do rendimento de um emprego de que pedira demissão por motivo de dissidência com o seu chefe. Mas estes contrastes entre a fortuna e o caráter não são raros. Viana era um exemplo disso. Nasceu parasita como outros nascem anões. Era parasita por direito divino.” Ressurreição (Capítulo I: No dia de ano bom) por Machado de Assis

24 fevereiro 2007

17 outubro 2006

Sete Lagoas - MG - indo embora

São ruas tristes as ruas do sertão...

02 outubro 2006

CLARICE – UMA APRENDIZAGEM OU O LIVROS DOS PRAZERES

Há alguns anos, aprendi que o texto literário é composto de camadas. Num primeiro plano ele se apresenta de uma forma. A medida que o depuramos, cada uma de suas camadas vão se definindo e assim, descobrimos um mundo de significados e a sua essência.
No caso do livro "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector, é um bom exemplo, em que se é possível confirmar o perfil estratificado do texto literário.
Em sua primeira camada, o livro é chato, artificial, meio que auto ajuda (o próprio título do livro – uma aprendizagem), seu conteúdo filosófico não poderia ser pior, sem falar na forma como o personagem Ulisses, tenta moldar o comportamento de Lory, para que ela aprenda a amar, ficando desta forma, uma mulher criada para ele. Na leitura imediata do livro, fiquei sem entender como uma escritora no nível de Clarice pôde escrever algo tão esquisito.
Porém, no aprofundamento de suas camadas, percebemos que o livro é uma obra prima, uma jóia cuidadosamente lapidada. Ela fez, por meio da literatura, um excelente tratado sobre a linguagem. Foi uma das discípulas que escreveu as aulas do famoso lingüista Saussure, de maneira magistral.
Pois, existe coisa mais artificial e chata, que a língua expressa obedecendo todos os padrões lingüísticos da forma culta. Sem nenhum deslize, com todos os pontos, conjugações e concordâncias perfeitas. Um exemplo é o Marco Aurélio de Melo (Ministro do Supremo Tribunal Federal) falando. No início, fica-se encantado com o seu discurso, no entanto depois de algum tempo, vai nos entediando com a sua perfeição no uso do vernáculo. A Clarice concretizou isso, na construção do personagem Ulisses, o homem perfeito. Em grau tão elevado, que o tornou artificial, não humano. Desta forma, Ulisses é a língua, um amontoado de códigos gráficos e fônicos que nada têm haver com o referente, ou seja com aquilo que consideramos realidade. A língua, é abstração pura, no universo humano, é Deus, pois Ele não passa disto. É claro que Ulisses não é a língua do povo, bagunçada, criativa, cheia de distorções gramaticais, gírias, modismos, mas sim, a da academia, manipulada pelos deuses do olímpo.
Não é a toa que o seu personagem, seja um professor universitário de filosofia, homem maduro, culto, de alma marcada pelas cicatrizes da vida de que conseguiu superá-las, que escolhe uma mulher professora primária, imatura, sexualmente quase selvagem, infantil, para prepará-la para o amor. Lory é oposto de Ulisses. E para conhecer este outro extremo, ele sugere que ela escreva-lhe, tudo o que gostaria de dizer-lhe e que a falta coragem, porém, quando ela tenta relatar os seus sentimentos, tem medo do que poderá revelar. Escolhe as palavras, mas as palavras são insuficientes para que possa relatar os seus sentimentos, tenta desistir do que escreve e dele, mas não consegue. Parece não querer transformar no que ele deseja, no entanto segue em frente no relacionamento, acreditando que os seus encantos, a sua sensualidade sejam mais forte e possa seduzi-lo, sem ser preciso passar pela transformação a que ele exige: de que ela esteja pronta para ele, para amar. Portanto, este conflito entre eles, não aparece de forma gratuita, visto que no discurso entre pessoas, que não falam a mesma língua, não têm o mesmo padrão lingüistico, uma terá que ceder, e ajustar-se à língua do outro. Desta forma, uma relação de poder se estabelece e no caso desses dois personagens, Ulisses propõe a descer até a primariedade de Lory, mas para que ela consiga elevar-se, desenvolver-se, para que seja possível haver uma comunicações entre eles, ajustada a sua linguagem aprimorada, para paradoxalmente, a uma definição de amor dada por um brilhante professor de literatura, "amar é descer até objeto abjeto para amá-lo e compreendê-lo, porém Ulisses desce até o objeto não para compreendê-lo e amá-lo, mas para ajustá-lo aos seus padrões. A aprendizagem dos preceitos culturais é isso, um ajustamento dos instintos.
Logo, as camadas deste romance são diversas, apenas tentei abordar uma delas. A literatura é livre para a hermenêutica. Sem dizer que a própria autora, no título, deixa livre a interpretação ao dar dois títulos para o livro: "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres".

19 julho 2006

A BATALHA

Quando levantares tuas armas
contra meu corpo,
não lutarei.
Na nevasca angustiante de Kurosawa,
tu perdeste,
mas comigo tu vencerás.
Contigo não usarei jogar xadrez
em troca de alguns anos.
Ao contrário de Bergman,
entre a vida e a morte
escolherei a morte,
pois viver é morrer um pouco a cada dia.
Tu sempre venceste os que jogam para viver...
Quando enviares o corvo de Allan Poe,
não perderei tempo com indagações ao emissário.
Abrirei a porta e aceitarei a sentença.
De que servirá fazer anamnese
entre meus últimos suspiros,
se de tudo que vier a descobrir
nada levarei?
Se o relógio do meu tempo
perderá os ponteiros?
Se a vida que pulsa no meu corpo
lentamente sucumbirá?

20 abril 2006

ELEFANTE DO SÉCULO XXI

Atualmente, estou ainda mais desconectada dos rituais culturais e das formas como a sociedade atual é organizada. Vejo o mundo hoje, apesar de todo o avanço tecnológico, mais para a Idade Média ou com tendência ao barroco degradado e empobrecido.
Vejam só a desconexão. Acredito no modelo familiar clássico, no tripé composto por pai, mãe e filhos (caso o casal desejar tê-los), tendo como assento que dá sustentação a relação: o amor, sendo este uma forma de oferecer suporte cultural e estrutura psíquica para que o sujeito consiga sobreviver na civilização. Lembro que esse modelo não é o burguês, em que o vínculo é criado por meio de contrato e talvez seja aí que as coisas começam a complicar, a relação íntima passou a ser essencialmente um negócio e nem o amor é a banalidade exposta em camisetas e rotado por todos os lados.
Desta forma, aquilo que São Paulo diz em relação ao trabalho prestado pelo escravo ao senhor, que trabalhasse pelo amor e não pela servidão, hoje não tem mais sentido. O casamento, o trabalho, os comportamentos das pessoas são tudo um comércio, em que o sujeito se tornou um escravo sem autenticidade, virou um robô alimentado pela mídia, pelos livros de receitas de Como isso e Como aquilo....
Eu mim sinto um verdadeiro elefante drummondiano na selva do século XXI.

25 fevereiro 2006

PARAÍSOS ARTIFICIAIS

Publico a entrevista abaixo, por ser um assunto que venho estudando e a forma como o entrevistado argumenta as suas idéias é muito interessante, além de que nos ajuda a compreender melhor um dos fenômenos que tanto presenciamos em nosso conturbado cotidiano: a patologização pela medicina do comportamento humano. Espero que gostem!

Entrevista com Moacyr Scliar

Falta de serotonina, excesso de dopamina, falhas nas fendas sinápticas - a bioquímica cerebral está na ordem do dia desde que os médicos passaram a anunciar a descoberta de causas orgânicas para males da alma. A saber: depressões, angústia e pessimismo. O entusiasmo é tanto que nesse pacote de doenças entra o que até ontem era considerado traço de personalidade, como mau humor e melancolia. Chega-se a ter a impressão de que o objetivo de tais pesquisas é formular um remédio que propicie um estado de felicidade imune aos psiquismos, imperturbável diante das vicissitudes da vida. Essa pílula mágica seria mesmo formidável, e não só para o faturamento dos laboratórios farmacêuticos. Mas é preciso ir devagar com o andor, acredita o escritor gaúcho Moacyr Scliar, 60 anos e 44 livros publicados, ele próprio médico. Scliar, que tem na medicina um dos temas de sua literatura, diz nesta entrevista a VEJA que a ambição de controlar quimicamente todos os aspectos do comportamento humano, além de ser um desdobramento previsível da onipotência médica, camufla tentações totalitárias.

- Se traços de caráter passaram a ser distúrbios de personalidade, que fazer para não acabar num asilo de loucos?
- Ter em mente que a atual situação também é resultado da cumplicidade entre o criminoso e a vítima. Hoje, as pessoas buscam na medicina as soluções para todos os seus problemas. É o que Ivan Illich chamou de medicalização da vida. (*) Ele levanta a hipótese de que os médicos, ao tentar controlar uma série de aspectos da vida, serviam como instrumento de engenharia social. Aliás, no século XIX essa idéia ainda em esboço estava bem representada no asilo de alienados, satirizada por Machado de Assis em O Alienista.
- A melancolia e outros estados de espírito tidos como negativos podem ser produtivos?
- É claro que sim. Muitas pessoas encontram na tristeza, no inconformismo, no mau humor material para criar na literatura, na música, na pintura. Isso não só diminui como humaniza o seu sofrimento e os seus sentimentos. Quando lemos um livro de um melancólico como o escritor checo Franz Kafka, que teve uma vida de intenso sofrimento psicológico, nós partilhamos de sua angústia - o que nos torna melhores. Toda arte encontra sua expressão na metáfora da garrafa do náufrago que atira sua mensagem ao mar sem saber a quem ela chegará. Essa mensagem tem chegado a bem poucos, é verdade, mas em inúmeros casos talvez ela pudesse ser um substituto para os artifícios químicos. As pessoas que lêem, que se nutrem de arte, sabem que nenhum homem é uma ilha e que todos padecem, em maior ou menor grau, das limitações da condição humana.
- Como o senhor vê a tentativa da medicina de encontrar respostas químicas para quase todos os comportamentos?
- Há nessa atitude um componente da onipotência que por vezes contamina a pesquisa e a prática médicas. De uma perspectiva histórica, o fenômeno é explicável pelo fato de a medicina científica ser algo recente, que ainda inspira um entusiasmo desmedido como qualquer brinquedo novo.
- Mas a medicina não foi sempre uma ciência?
- Não. Durante séculos, em diferentes culturas, a arte de curar foi uma prática mágico-religiosa. Quem tratava das doenças eram pajés e sacerdotes, e o instrumento básico para a cura era a fé do doente no xamã que o atendia. Com Hipócrates, na Antiga Grécia, teve início a visão empírica, em que algumas doenças passaram a ter origens naturais. Mas só no final do século passado a medicina entrou realmente na sua fase científica, que pode ser resumida da seguinte forma: há uma causa para a doença e existe uma maneira de enfrentá-la no campo de combate que é o corpo do paciente. Quem inaugurou essa etapa, que pode ser considerada a primeira revolução na medicina, foi o francês Louis Pasteur, o descobridor dos microorganismos. Em sua época, Pasteur chegou a ser mais popular do que Napoleão Bonaparte, o que dá a medida do seu feito. Neste fim de século, estamos vivendo uma segunda revolução, representada por procedimentos como a engenharia genética, o estudo da bioquímica cerebral e novos métodos de diagnóstico e tratamento. É o apogeu da visão científica da medicina, que agora tenta ampliar seu raio de ação para questões comportamentais, por meio da psiquiatria. Vingou a idéia da pílula mágica - de que para cada sofrimento físico ou mental existe um remedinho milagroso.
- Por que a idéia da pílula mágica faz sucesso?
- Porque parece ser o caminho mais fácil para preencher esse vazio interior que tomou conta das pessoas neste final de século - vazio este que causa uma ansiedade exasperante. A busca da pílula mágica corresponde ao afrouxamento das relações interpessoais, que ficaram muito tênues, difícies. Em geral, tem-se poucos amigos, a família é uma chateação e os colegas de trabalho só querem saber de puxar o seu tapete. É preciso ver, ainda, que certas doenças e tipos de condicionamento ficaram estigmatizados. Depressão, por exemplo. As pessoas simplesmente não toleram a depressão em si mesmas e nos outros. Como em nossa sociedade os indivíduos são constantemente instados a mover-se, a fazer coisas, a tomar decisões, a agir, quem fica sozinho num canto é visto com suspeição. É curioso notar que a forma de considerarmos a doença bipolar, em que existe um pólo maníaco e outro depressivo, obedece a uma determinação social.
- Como assim?
- O pólo maníaco é muito mais aceito pelas sociedades competitivas do que o pólo depressivo. O sujeito que diz que pretende construir um prédio de 500 andares ou que formará uma frota de espaçonaves para fazer pacotes turísticos até a Lua é visto como um empreendedor. Mas se alguém ficar quieto, ensimesmado, não faltará quem diga que algo não está bem, que ele deve tomar alguma providência. E daí o sucesso de drogas como o Prozac.
- Essas drogas não representam evolução notável?
- É claro que existem distúrbios mentais com diagnóstico bem definido. A depressão, em muitos casos, pode ser uma doença grave, capaz de levar à invalidez e ao suicídio. Nesses casos, ela precisa ser tratada com remédios. Noto, porém, que é grande o número de pessoas que procuram médicos não porque estejam doentes, mas porque desejam mudar o seu humor, a sua personalidade. Querem fazer uma maquilagem de seu psiquismo, de seu estado de espírito. O bem de consumo prometido por muitos psiquiatras é um comportamento standard, de uma alegria plastificada que não dá margens a alterações de humor. Acho interessante que a substância mágica deste final de século sejam os antidepressivos. Podia ser um analgésico poderoso, um tranqüilizante muito forte, mas não. Isso mostra como a depressão é o espectro da modernidade. Para os gregos, a melancolia era um distúrbio dos humores, um excesso do que eles chamavam de bile negra, curável por dietas e purgas. Nada de preocupante. É a modernidade que vê na melancolia uma ameaça à inserção social do indivíduo, à capacidade produtiva. Evidentemente, quem busca em remédios e drogas uma máscara para a alma precisa lembrar que são paraísos artificiais, para usar uma expressão do poeta francês Baudelaire. Essas substâncias podem fazer com que o sujeito se afunde de vez e, o que é pior, com prescrição médica.
- Falta formação humanística aos médicos?
- Falta. E essa lacuna prejudica sobremaneira a relação com o paciente. As pessoas que hoje vão a um médico o fazem com a mesma expectativa de seus antepassados: encontrar alguém que as ouça. Muitas vezes basta isso. No entanto, o diálogo deu lugar a uma batelada de exames. O resultado é que o médico conversa cada vez menos com o paciente, toca menos na pessoa que o consulta. Houve ganho porque não há toque que substitua uma tomografia computadorizada no caso de um tumor no cérebro. Mas, ao deixar de ouvir e examinar com as próprias mãos o paciente, o profissional da saúde também perdeu sua humanidade. A cultura do médico do passado, que tinha noções de antropologia, era um leitor ávido e muitas vezes escritor, foi substituída pela formação estritamente tecnológica. Nesse caso, houve perda, porque não existe tomografia computadorizada que detecte a infelicidade de um paciente como origem daquele aperto no coração que se traduz em incômodos físicos. Nos Estados Unidos, algumas universidades esboçam uma reação, com um currículo composto de matérias como história da medicina, sociologia e ética. Tentam, assim, alargar o horizonte do estudante e, por tabela, melhorar a comunicação com seu futuro paciente.
- Apesar da busca de
um comportamento padrão, nunca se fez tanto a apologia das diferenças individuais. Como o senhor interpreta essa contradição?
- Essas diferenças são apenas um detalhe, funcionam como um acessório de moda. O que se propõe é uma pitada de individualidade combinada com uma grande dose de homogeneidade. No fundo, o que está por trás das mensagens publicitárias, da ênfase na criatividade no trabalho, é uma espécie de slogan esquizofrênico: "Seja diferente: seja igual". As ditaduras exercem o totalitarismo mediante a prisão, a tortura, a censura, as máquinas de extermínio. Já o que vou chamar de totalitarismo democrático se dá por meio do consumo, que homogeneíza padrões estéticos, de comportamento, de gosto. Arrisco dizer que essa necessidade de padronizar tudo guarda íntima relação com o prolongamento da adolescência, um fenômeno visível a olho nú.
- O que é isso?
- Na adolescência, todos querem pertencer à mesma tribo, falar a mesma língua, experimentar os mesmos sentimentos. Como tais necessidades satisfazem mais às exigências do mercado, essa fase da vida vem sendo esticada no plano cultural e social. Esse modelo do adolescente cheio de energia, com vontade de unir-se indissoluvelmente a um grupo, rápido no gatilho, encanta a sociedade contemporânea. No passado, a figura que servia de modelo era do velho experiente. Isso terminou porque a sabedoria foi substituída pela informação mastigada. Hoje, ninguém está interessado em ruminar o sentido da vida. Uma figura representativa deste nosso tempo é Bill Gates. Ele é o eterno adolescente, o prestidigitador capaz de fornecer respostas e sensações instantâneas.
- Qual o lugar da literatura em um mundo tão juvenil e apressado?
- As pessoas têm necessidade de ficção. É verdade que a literatura é apenas uma das formas que atendem a essa necessidade - na televisão, principalmente, a ficcionalização da realidade é um fato. Acho que a palavra que sintetiza a situação atual da literatura é perplexidade. Voltando ao final do século XIX, a literatura tinha o papel fundamental de ensinar as pessoas a viver. Recorria-se a grandes autores, como Balzac, Tolstoi e Dostoievski, para extrair lições, refletir sobre os fatos da vida e educar-se para o convívio humano. Essa função a literatura perdeu indelevelmente. Ao longo deste século, ela perdeu uma outra: a de doutrinação política. Essa deixou de ter sentido com o fim do comunismo, que lhe dava suporte. Na maioria das vezes, ser escritor era ser escritor de esquerda. O que sobrou para a literatura neste final de século? Acho que o modesto prazer de contar histórias, de ser veículo de emoções um pouco diferentes das proporcionadas pela indústria cultural.
- O senhor é um pessimista?
- Não se confundam minhas observações com passadismo ou saudosismo, duas das vias de acesso para o pessimismo. Ao chegar aos 60 anos, constato que existe um mecanismo de correção de rumo que sempre salva a sociedade do colapso. A história humana obedece a ciclos que alternam euforia e tranqüilidade. Estamos vivendo uma fase furiosa em que procuramos fugir dos próprios fantasmas, em que tentamos nos integrar a essa realidade chapada que é oferecida de bandeja pela economia de mercado e pela indústria do entretenimento. Tenho certeza, porém, de que um novo período está por vir. Nele, as pessoas voltarão a dar mais valor à vida interior e às relações interpessoais. Se fosse um pessimista, deixaria de escrever.
- Qual o tema do livro que o senhor pretende lançar até o final do ano?
- Estou escrevendo uma novela que gira em torno do médico sanitarista Noel Nutels, um judeu-russo que ainda criança imigrou para o Recife. Na capital pernambucana, ele formou-se em medicina e, não demorou muito, embrenhou-se no Xingu. Era um apaixonado pelos índios. Depois de presenciar as perseguições terríveis a judeus que antecederam e sucederam a Revolução Russa. Nutels identificou-se com esse grupo humano que também estava sendo massacrado. Ele morreu no início da década de 70, aos 59 anos, deixando um trabalho notável como sanitarista e indigenista. Atribui-se a Nutels, que era homem de esquerda, uma das melhores piadas com militares que este país já produziu. Depois do golpe de 64, já muito doente, ele foi visitado por cinco generais que o tinham em alta conta pelos serviços prestados no Xingu. "Como você está, Nutels?", perguntou um dos militares. "Como o Brasil: na m...e cercado de generais"., respondeu Nutels. É símbolo de uma época em que as pessoas tinham uma causa a se dedicavam a ela com paixão.

Entrevista dada para Mário SabinoPáginas amarelas da VEJA, de 28 de maio de 1997
(*)Nota da redação do PECO:Némesis Médica, de Ivan IllichPrimera edición en español, junio de 1978D.R.© Editorial Joaquin Mortiz, S.A.Grupo Editorial Planeta - Tabasco 106, México 7, D.F. Título original: Medical Nemesis© 1976, Random House, Inc - Pantheon Books Némesis MédicaEditora Nova Fronteira1976 - Rio de Janeiro / RJ

28 janeiro 2006

UM BELO CAPÍTULO DE THOMAS HARDY

DE NOVO EM CHRISTMNSTER

Quando chegaram, a estação estava muito animada. Rapazes de chapéu de palha esperavam moças que com eles tinham notável semelhança e usavam alegres e claros vestidos de verão.
- O lugar parece alegre – disse Sue. – É o dia das Comemorações!... Judas... como você é esperto... Chegou neste dia de propósito!
- Cheguei – disse Judas calmamente, tomando o menino mais moço nos braços e recomendando ao filho de Arabela que não se afastasse deles, enquanto Sue tomava conta da menina mais velha.
- Pensei que pudéssemos chegar hoje, tão bem quanto em outro qualquer dia.
- Mas, tenho medo que isso deprima você! – disse Sue, olhando-o ansiosamente dos pés à cabeça.
- Ah! É preciso não deixar que isso interfira na nossa vida. Temos muito que fazer antes de nos instalarmos aqui. E, antes de mais nada, precisamos procurar alojamento.
Tendo deixado a bagagem e as ferramentas na estação, foram a pé pela rua que lhes era tão familiar, misturados com a multidão que seguia na mesma direção. Na esquina dos Quatros Caminhos, preparavam-se para tomar o lado onde havia probabilidades de encontrar o que procuravam, quando, olhando o relógio e a multidão que se apressava, Judas disse:
- Vamos ver a procissão. E não nos preocupemos com o alojamento. Cuidaremos disso depois.
- Você não acha que deveríamos primeiro tratar de arranjar um teto? – sugeriu Sue.
- Contudo, Judas estava com o espírito na comemoração. Desceram a rua principal, o bebê nos braços de Judas, Sue segurando pela mão a meninazinha, enquanto o filho de Arabela seguia silenciosamente ao lado deles, com ar pensativo. Grupos de meninas bonitas, usando vestidos leves, e grupos de pais ignorantes que não haviam cursado nenhum colégio em sua juventude, seguiam na mesma direção, ladeados por irmãos ou filhos, cujas expressões revelavam nitidamente a opinião de que nenhum ser digno do nome de homem tinha jamais vivido neste mundo antes deles o terem vindo adornar com suas presenças.
- Meu fracasso pesa sobre mim à vista de cada um desses jovens – disse Judas. – Uma lição sobre a presunção me esperava hoje aqui! É um dia de humilhação para mim!... Se você, minha querida Sue, não tivesse vindo em meu socorro, teria ido para o diabo, por desespero!
- Sue viu, pela expressão de Judas, que ele estava numa terrível disposição de espírito.
- Melhor seria que nos tivéssemos ocupado logo de nossos afazeres, querido – disse Sue. – Tenho certeza que esse espetáculo despertará em você velhas tristezas e não lhe fará nenhum bem.
- Bem, estamos perto, vamos cuidar disso agora – disse Judas.
Viraram à esquerda da igreja de pórtico italiano, cujas colunas torsas eram guarnecidas por trepadeiras, e continuaram até que chegaram diante do teatro circular onde se encontrava o famoso lanternim: símbolo, para Judas, das suas ambições abandonadas. Era ali que tinha contemplado a cidade dos Colégios, na tarde de sua grande meditação. Era aí que tinha ficado enfim convencido da futilidade de suas esperanças de ser um filho da Universidade.
Naquele dia, no espaço livre que se estendia entre esse monumento e o colégio mais próximo, comprimia-se, em expectativa, uma multidão numerosa. Uma passagem havia sido reservada, no centro, entre a porta do colégio e a do grande edifício do teatro.
- É aqui o lugar. Vão passar já – gritou Judas de repente, muito excitado. Forçando caminho, chegou até a grade, tendo sempre o menino nos braços. Sue e as outras crianças o seguiam. A multidão se fechou atrás deles, conversando, brincando, rindo, enquanto os carros, um após outro, paravam diante da pequena porta do colégio e deles desciam personagens solenes, vestidos de vermelho cor de sangue.
O céu se tornara nublado e lívido e, de quando em quando. Ouvia-se o trovão.
O Pequeno Pai do Tempo teve um arrepio.
- Dir-se-ia o dia do julgamento final – murmurou ele.
- São apenas eruditos Doutores – Disse Sue.
Enquanto esperavam, grandes pingos de chuva caíam sobre suas cabeças e ombros. A espera se tornava enfadonha e Sue pediu mais uma vez para partir.
- Não tardará muito, agora – respondeu Judas, sem voltar a cabeça.
Contudo, a procissão continuava a não aparecer e alguém, na multidão, para passar o tempo, olhando a fachada do colégio mais próximo, disse que gostaria de saber o que queriam dizer com a inscrição latina que se encontrava no meio da parede. Judas, que estava perto, explicou. E percebendo que todos à volta dele o ouviam com interesse, começou a descrever as esculturas da frisa e a comentar alguns detalhes de arquitetura dos outros colégios da cidade.
A multidão de desocupados, inclusive os dois policiais que guardavam as portas, arregalavam os olhos, tal como os Licaonianos diante de S. Paulo, posto que Judas facilmente se entusiasmava com qualquer assunto. Pareciam admirados pelo fato daquele estrangeiro conhecer melhor que eles os edifícios da cidade. Por fim, um deles disse:
- Mas, eu conheço esse homem. Trabalhava aqui há muitos anos. Seu nome é Judas Fawley. Vocês não se lembram que lhe tinham dado o apelido de Pregador dos Miseráveis? Não se lembram? Tinha idéias nesse sentido. Ao que suponho, está casado e é o filho que carrega nos braços. Taylor o reconhecerá, ele que conhece todo mundo.
Quem falava era um homem que se chamava Jack Stagg. Tinha trabalhado com Judas, restaurando colégios antigos. Tinker Taylor estava por perto. Essas palavras atraíram sua atenção. Gritou por cima da grade:
- Sentimos-nos muito honrados em recebê-lo, meu amigo! Judas fez um sinal com a cabeça.
- Você não parece ter lucrado muito saindo daqui, não? Judas teve um gesto de assentimento.
- A não ser novas bocas para nutrir. – Isso foi dito por uma nova voz que Judas reconheceu como a do Tio Joe, um outro pedreiro de que se lembrava.
Retrucou com bom humor que não podia dizer o contrário. E, de réplica, estabeleceu-se uma conversa geral entre ele a multidão. Tinker Taylor lhe perguntou se se lembrava de uma noite, no “cabaret”, durante a qual tinha sido desafiado a recitar o Credo em latim.
- Mas a fortuna não se encontrava no seu caminho, não? – interveio Joe. – Você não era bastante forte para chegar ao fim, não?
- Não responda mais nada – suplicou Sue.
- Acho que não gosto de Christminster – murmurou tristemente o Pequeno Pai do Tempo, invisível e abafado pela multidão circunvizinhante.
Sentido-se alvo de toda aquela gente curiosa, Judas não se achava disposto a recuar diante de uma declaração franca de que não tinha a menor razão de se sentir envergonhado. E, pouco depois, sentiu-se impelido a dizer, com voz forte aos que o escutavam:
- é um problema difícil, amigos, para todos os jovens... problemas aos quais me atirei e sobre os quais milhares de outros refletem atualmente, nestes tempos novos. Deve cada um seguir cegamente o caminho em que se acha, sem considerar seus dotes pessoais, ou deve, pelo contrário, pesar as aptidões, as preferências que possa ter, e mudar a direção de sua vida? Foi o que tentei fazer e fracassei. Mas, não admito que o meu fracasso valha como prova de que estava errado, do mesmo modo como não admitiria que o sucesso justificasse o bem-fundado do meu ponto de vista. E é assim, entretanto, que, muitas vezes, julgamos os esforços, não pelo seu valor essencial, mas pelo seu resultado acidental. Se me tivesse tornado um desses senhores vestidos de vermelho e preto que estamos vendo descer, ali, todos diriam: “vejam como este homem agiu sabiamente, seguindo o pendor de sua natureza!” Mas, não tendo acabado melhor do que comecei, dizem: “Vejam como este homem agiu estupidamente, seguindo um capricho de sua imaginação!” No Entanto, foi minha pobreza e não a minha vontade que determinou a minha derrota. São precisas duas ou três gerações para fazer o que eu tentei fazer em uma só. Meus instintos, minhas paixões, talvez devesse dizer: meus vícios, eram fortes demais para não obstruir o caminho de um homem sem recursos. Precisaria ter um sangue de peixe e um egoísmo de porco para ter realmente uma probabilidade de me tornar um homem importante! Vocês podem me ridicularizar – permito que o façam. – Presto-me bem a isso, não há dúvida. Mas, creio que se soubessem de tudo por que passei, nesses últimos anos, vocês teriam, antes pena de mim. E se eles soubessem – indicava com um gesto de cabeça o colégio onde Doutores estavam chegando – fariam possivelmente o mesmo.
- Realmente ele tem um ar doente e exausto – disse uma mulher.
O rosto de Sue exprimia a sua emoção. Mas embora estivesse ao lado de Judas, ficava escondida por ele.
- Talvez eu seja útil, antes de morrer, como um terrível exemplo do que não se deve fazer, uma espécie de ilustração de uma história edificante – continuou Judas, não sem certo amargor, se bem que tivesse começado da falar com serenidade. – Não sou, afinal de contas, senão uma desprezível vítima desse espírito de inquietude moral e social que faz tantos desgraçados na nossa época.
- Não lhes diga isso – murmurou Sue, com lágrimas nos olhos, compreendendo o estado de espírito de Judas – Não é isso o que você é. Você lutou nobremente para se instruir e só almas muito baixas poderiam censurar isso.
Judas mudou a criança para uma posição mais cômoda, nos braços, e conclui:
- E o que vocês vêem, um homem pobre e doente, não é o que há de pior em mim. Estou num caos moral. Procurando às apalpadelas, no escuro. Agindo por instinto e sem modelo algum. Há oito ou nove anos atrás, quando aqui vim pela primeira vez, tinha um perfeito estoque de opiniões estabelecidas, que foram caindo, uma a uma. E, quanto mais caminho menos me sinto seguro. Pergunto-me se, presentemente, tenho outra regra de vida a não ser a de seguir pendores que não sejam nocivos nem a mim nem aos outros, e fazer prazer às pessoas de quem gosto. Aí está, senhores: queríeis saber o que eu me tinha tornado, disso tudo. Possa isso vos ser útil! Não posso me explicar mais longamente, aqui. Percebo que deve haver qualquer coisa de errado nas nossas fórmulas sociais: para descobri-lo, haveria necessidade de homens ou mulheres mais clarividentes do que eu – se é que alguém o possa fazer, em nossos dias. Porque quem é que sabe o que é bom para o homem neste mundo? E quem pode dizer a um homem o que haverá, depois dele, debaixo do sol?
- Escutem, escutem! – gritava o povo.
- Bom sermão! – disse Tinker Taylor. E, dirigindo-se a seus vizinhos:
- Certamente que um desses pastores que andam por toda a parte, oficiando quando os Reverendos estão de férias, não teria discursado sobre tantas questões de doutrina por menos de uma guinea. Não acham? Aposto que nenhum! E ainda, teriam tido de preparar o sermão. E, no entanto, ele não é senão um operário!
Como uma espécie de comentário objetivo ao discurso de Judas, chegou neste momento, um carro conduzindo um Doutor, pomposamente vestido e ofegante. Como o cavalo não parasse no lugar oportuno, saltou do carro e caminhou até o Colégio. O cocheiro pulou no chão e pôs-se da dar ponta-pés na barriga do animal.
- Se se pode fazer isso no portão de um Colégio – disse Judas – na própria cidade da Religião e da Instrução, quem poderá dizer até que ponto chegamos.
- Silêncio! – disse um dos policiais que, junto com seu companheiro, acabara de abrir as duas grandes portas defrontes ao colégio – cale-se, homem, durante o desfile do cortejo.
A chuva começou a cair com mais força, e todos os que tinham guarda-chuvas, os abriram. Judas não possuía nenhum e Sue, apenas um pequeno guarda-sol. Esta última tinha empalidecido muito, sem que Judas o tivesse notado.
- Partamos, Judas querido – murmurou, tentando abrigá-lo. – Não temos ainda alojamento e todas as nossas coisas estão na estação. De mais a mais, você está todo molhado, tenho medo que fique doente!
- Estão chegando, agora. Só um momento e, depois, iremos embora – disse.
Um carrilhão de seis sinos começou a tocar, cabeças aparecem em todas as janelas e o cortejo dos Provedores e dos novos Doutores começou a desfilar. Suas silhuetas, vestidas de preto e vermelho, passavam no campo de visão de Judas como planetas inacessíveis diante de uma objetiva.
A medida que desfilavam, pessoas bem informadas iam dizendo-lhes os nomes, e, quando atingiram o velho teatro circular de Wren, levantaram-se vivas aclamações.
- vamos até lá! – exclamou Judas.
Chovia agora torrencialmente, mas ele parecia não perceber nada e arrastava os seus para o lado do teatro. Ficaram ali, em pé sobre a palha que tinha sido posta para abafar o ranger das rodas. Os bustos de pedra, pálidos e estranhos, corroídos pelas geadas, pareciam contemplar a cerimônia e olhar particularmente Judas, Sue e as crianças, encharcadas, como se fossem personagens grotescas que nada tivessem que fazer ali.
Queria tanto entrar! – disse Judas com fervor. – Espere: daqui posso ouvir algumas palavras do discurso em latim: as janelas estão abertas.
Todavia, com o barulho do órgão, os gritos e as hurras que acompanhavam cada discurso, Judas, molhado, não pode ouvir grande coisa. Mal distinguia, de vez em quando, uma palavra sonora terminada em um ou ibus.
- Ah! Ficarei sempre de fora, até o fim de minha vida! – disse, por fim suspirando.
THOMAS HARDY – JUDAS, O OBSCURO – ED. ITATIAIA, 1958, PAG. 319-325

08 janeiro 2006

RABISCO I

PRONOMES

Não importa o eu,
o tu,
o ele.
Mas sim, o nós,
o vós,
o eles.
A busca do singular é cômoda e
estéril.
Porém, o plural abre caminho para o
amor,
o ódio,
o insólito,
a fertilidade e
o caos.

18 dezembro 2005

PÉTALAS DE ROSA II

Como já dito em outra postagem, estou viajando já faz alguns dias ao “Grande Sertão: Veredas”. Neste percurso, venho encontrando perolas que desejo compartilhar com alguns poucos visitantes que freqüentam este espaço:

“Senti pena daqueles pobres, cansados, azombados, quase todos sujos de sangues secos – se via que não tinham esperança nenhuma decente (...). O que demasia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.”
O livro é de uma beleza, além de trazer uma séria de definições perfeitas, próprias do humano, que não se encontram em nenhum dicionário, ou mesmo em livros teóricos.

11 dezembro 2005

DESABAFO

Antes de começar a reclamar de um item do edital do vestibular da UFMG, gostaria de deixar bem claro, que não compartilho das opiniões que hoje estão em voga de: “cotas raciais”, “cota pobreza” (porque no Brasil, público se confunde com pobreza), e outras tantas idiotices que a reforma universitária vem tentando implantar no ensino público superior. Neste caso, poucos pobres e negros não tem acesso a universidade pública, não porque ele seja pobre ou negro, mas porque teve uma péssima educação básica, esta sim, sem nenhuma perspectiva de melhora.

Sou da opinião que para se ter igualdade no ingresso do ensino superior público, deve-se investir pesado na educação básica: com muitos laboratórios de física; química; biologia (desde o anos iniciais do ensino fundamental); ensino de matemática; ou seja álgebra e geometria, pois os professores dessa matéria ensinam os 11 anos, apenas álgebra e quase sempre o B A BÁ, até Hitler sabia que para emburrecer um povo, não se deve ensiná-los matemática, apenas álgebra; português com muita produção de texto (diversos), eu mesma, raras foram as vezes que um professor mandava fazer uma produção de texto, normalmente no início do ano mandavam fazer uma com o tema ”as férias”, isto porque redação dá trabalho para corrigir, e os professores com o péssimo salário que recebem, para sobreviver têm que trabalhar em até três turnos, em escolas diversas, e realmente não tem como corrigir nada, apenas dão aulas. É a educação no Brasil, em frangalhos.

Mas vamos ao que interessa, depois do Estado me oferecer a pior educação possível e mais os atropelos da vida, concluí o ensino médio precisando de voltar para o primário. Nos onze anos estudados, no meu tempo ainda havia retenção, o que garantia um mínimo de qualidade, não houve um ano se quer, que o processo não era interrompido por greves, que rara as vezes duravam menos de 60 dias. Nunca foi feito uma reposição de verdade dos dias parados, para os professores fingir que foram feitas a reposição das aulas é uma espécie de greve branca, visto que em quase todas as greves saem derrotados, então o jogo passa a ser o seguinte: “o governo exigi a reposição”, a escola monta um calendário de reposição, que normalmente é aos sábados, aí quase ninguém aparece nessas aulas, nem professor, nem aluno. Então, levando-se em consideração a LDB, que exige duzentos dias letivos, se houve uma greve de 60 dias letivos, o Estado passa a oferecer apenas 140 dias letivos. Outro agravante são as malditas reuniões feitas nas escolas dentro do horário de aula, que leva a dispensar os alunos e passam outra vez a “comer” os míseros dias letivos, como regra nas escolas, toda sexta-feira têm reunião, então a semana escolar passa a ser de quatro dias, ao invés de 5 dias. Como falar em qualidade na educação depois de relatar uma situação destas. E sem nenhum exagero, isto ocorre de norte a sul, em todo o Estado de Minas Gerais, tanto na esfera estadual quanto na municipal, sem exceção.

Ainda assim, mesmo tendo concluído o ensino médio semi-analfabeta, consegui ingressar em uma faculdade privada. No entanto, como as mensalidades não são nada baratas, tive que parar o curso e resolvi estudar para o vestibular na UFMG. Qual foi a minha conclusão no início dos meus estudos, não tinha a menor condições de concorrer no vestibular, se realmente não fizesse toda a educação básica de novo: onze anos jogados fora no esgoto. Não sabia nada de química, física (não pasmem, mas sinceramente, nunca tive uma aula sequer dessas duas matérias nos onze anos de estudos), biologia, matemática (geometria/função), não sabia nem sequer escrever, coisa que venho aprendendo ainda hoje. Passei os anos de 2003, 2004 e 2005 estudando o que podia para conseguir concorrer a uma vaga do curso de direito da egrégia Universidade Federal de Minas Gerais. No vestibular de 2003, como seqüelas de toda a minha educação, fiz uma péssima prova na primeira etapa, realmente não tinha a menor condições de ir para a segunda etapa do vestibular. Mas em 2004 e 2005, considero ter sido vítima da burrice do edital dessa instituição, que tem como regra para ir para a segunda etapa no caso do curso de direito (muito concorrido) “que os candidatos que fizer 72 pontos ou mais, e pelo menos cinco pontos em cada matéria são classificados para a lista prioritária e são chamados até que haja, no máximo, três concorrentes por vaga”. A conseqüência dessa regra é a seguinte: vai para a segunda etapa pessoas que em total de pontos tirou menos que você. Veja só o absurdo: são distribuídos 120 pontos na primeira etapa, 15 para cada disciplina (matemática, português, história, geografia, língua estrangeira, química, física e biologia), caso você tire 15 pontos, em 7 disciplina e em uma delas você tem a infelicidade de tirar apenas 4 pontos, você está eliminado, no caso do curso de direito para a segunda etapa do vestibular. Ou seja, neste caso, a pessoa tirou em total de pontos 109 em 120 distribuídos e não foi para a segunda etapa. Outro, que tirou 72 pontos no total e não tirou em nenhuma matéria menos de 5 pontos foi. Este foi o meu caso em 2004, fui de muito bom a excelente em 7 disciplinas e em matemática tirei 4 pontos e por isto não consegui ir para a segunda etapa do vestibular da UFMG, depois de vários meses a universidade divulgou a nota de corte desse ano, e verifiquei que quem foi para a segunda etapa tirou em total de pontos, nota muito menor do que a minha. Neste ano, por infelicidade o fato voltou a ocorrer, e provavelmente irá para segunda etapa um candidato, no geral, menos preparado do que eu.
Sinceramente, gostaria que as pessoas que são responsáveis por discutir as mudanças no vestibular das instituições públicas, estivessem discutindo regras idiotas como esta relatada e não uma forma de destruir a qualidade do ensino oferecido por essas instituições.

01 novembro 2005

FILME - "VOZES INOCENTES"

Que triste se ouve a chuva
nos tetos de papelão.
Que triste vive minha gente
nas casas de papelão.
Crianças com a cor da minha terra
com as mesmas cicatrizes,
milionários de lombrigas.
Olhe quanto sofrimento.
Olhe como pesa o sofrimento.
Lá em cima
deixo a minha mulher prenha.
Abaixo, está a cidade
que se perde em sua confusão.

Música de André Abujamra, no belo filme "Vozes Inocentes"

30 outubro 2005

PÉTALAS DE ROSA

“Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...” (pág. 17)

“amor vem de amor” (pág. 25)

João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas – José Olympio Editora – 2° edição.

19 outubro 2005

LIVROS DE ROSA

Os livros são como vulcões adormecidos, enquanto não são lidos. Quando os lemos, um amontoado de sensações nos provocam e fazem um maravilhoso desastre em nossas almas. Estou para ler em breve o Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Sinceramente não sei se conseguirei sobreviver a este derramamento de lava incandescente, tenho medo, pois provavelmente não terei nenhum menino, como no irônico conto de Clarice: Feliz Aniversário, para trazer-me de volta a insignificância de nossas vidas e do mundo.

18 setembro 2005

REFLETINDO SOBRE A EDUCAÇÃO HOJE

SABER COMPETITIVO
Já é um virtual consenso o de que o principal insumo para o crescimento econômico nos próximos anos será o conhecimento -e falamos aqui de conhecimento especializado e de alto nível. Não é por outra razão que, cada vez mais, países estão competindo por cérebros. Não se trata apenas de produzir mais e com menos custos -tarefa em que os asiáticos hoje parecem imbatíveis-, mas, principalmente, de fomentar o processo inovador da maneira mais inteligente possível.
Nesse contexto, universidades adquirem importância vital. Não é exagero afirmar que os países que se mostrarem capazes de manter as melhores universidades terão garantido um lugar proeminente no competitivo mundo globalizado. Também não há muita dúvida de que, hoje, essa corrida está sendo vencida pelos EUA. Com efeito, a maioria dos rankings são esmagadoramente dominados por instituições norte-americanas. Na já clássica lista elaborada pela Universidade Jiao Tong, de Xangai, que combina indicadores como prêmios Nobel e citações em periódicos de primeira linha, universidades dos EUA ocupam nada menos do que 17 das 20 primeiras posições.
É claro que os critérios usados são sempre discutíveis. E é evidente que valorizam as chamadas ciências "duras" -aliás, para os efeitos de que trata este editorial, as ciências humanas são quase irrelevantes. São, porém, os critérios disponíveis. Ainda que configurem um pálido retrato da realidade, dizem mais do que a atitude, tão comum entre os que não querem ser avaliados, de simplesmente decretar a incomensurabilidade dos modelos e escapar à crítica.
Como observou em recente editorial a revista britânica "The Economist", o maior derrotado nesse processo é a Europa, que, até algumas décadas atrás, ainda abrigava as melhores universidades do planeta. É até possível que os EUA não consigam sustentar sua atual posição por muito tempo, e, embora a Europa busque recuperar o terreno perdido, países como Índia e China parecem ameaças mais verossímeis para a hegemonia norte-americana.
O diagnóstico da revista é o de que as instituições européias naufragaram por não ter conseguido adaptar-se aos novos tempos. O fracasso se deveria principalmente às limitações na forma de financiamento das universidades européias. Enquanto suas congêneres americanas buscam recursos em várias fontes como governo, taxas pagas por alunos, doações e convênios com empresas privadas, as instituições européias dependem quase que exclusivamente do Estado.
Esse modelo revelou-se inadequado para responder à sempre crescente demanda por educação superior. O poder público passou a exigir que a universidade "processasse" cada vez mais alunos, sem, entretanto, ampliar-lhe as verbas proporcionalmente. O resultado foi a deterioração da qualidade. E, como as universidades dos EUA estavam em melhor situação, passaram a atrair melhores nomes, mais alunos estrangeiros de primeira linha e, conseqüentemente, mais recursos. Em uma palavra, mostraram-se mais competitivas.
Não é por acaso que são justamente as universidades britânicas, que seguem um modelo mais próximo do das norte-americanas, que ainda mantêm a Europa no ranking das melhores instituições.Enquanto o mundo se envereda por esse tipo de discussão, no Brasil ainda se debate se escolas que se saem mal em todas as avaliações devem receber dinheiro do Estado para assegurar vagas a alunos que não obtêm lugar nas boas instituições.
EDITORIAL DA FOLHA DE SÃO PAULO 18/09/2005

04 setembro 2005

CARTAS DE VINCENT A THÉO


Amsterdam, 3 de abril de 1878

Théo,

Voltei a refletir sobre a nossa conversa, e involuntariamente meditei nas palavras: “Somos hoje o que éramos ontem”. Isto não significa que se deva marcar passo, e não tentar desenvolver-se, ao contrário, há uma razão imperiosa para fazê-lo e para buscá-lo.

Mas para permanecermos fiéis a estas palavras, não podemos recuar, e quando começamos a considerar as coisas com um olhar livre e confiante, não podemos voltar atrás nem hesitar.

Os que diziam “nós somos hoje o que éramos ontem” eram “homens honrados”, o que se depreende claramente da constituição que redigiram, que subsistirá por todos os tempos, e da qual se disse que tinha sido escrita “sob as emanações do céu” e “com uma mão de fogo”. É bom ser um “homem honrado” e procurar sê-lo cada vez mais, e fazemos bem em acreditar que para isto é preciso ser “homem introspectivo e espiritual”.

Se tivéssemos a convicção de pertencer a esta categoria, seguiríamos nosso caminho com calma e confiança, sem duvidar do bom resultado final. Havia um homem que certo dia entrou numa igreja e perguntou: “Será possível que o meu zelo tenha me enganado, que eu tenha tomado o mau caminho e que continue errado? Ah! Se eu me livrasse dessa incerteza e se pudesse ter a firme convicção de que acabaria por vencer e alcançar êxito”. E uma voz então lhe respondeu: “E se tivesses essa certeza, que farias então? Faças portanto como se a tivesses, e não serás perturbado”. O homem então continuou seu caminho, não mais incrédulo, mas crente, e voltou à obra, sem duvidar nem hesitar mais. No que se refere a ser “homem introspectivo e espiritual”, será que não poderíamos desenvolver em nós este estado pelo conhecimento da história em geral e de determinadas personalidades de cada época em particular, desde a história sagrada até a da Revolução, e desde a Odisséia até os livros de Dickens e de Michelet? E não poderíamos tirar algum ensinamento da obra de homens como Rembrandt, ou das Ervas Daninhas de Breton, ou As Horas do Dia de Millet, ou o Benedicite de De Groux ou Brion, ou O Recruta de De Groux (ou senão de Conscience) ou Os Grandes Carvalhos de Dupré, ou até mesmo os moinhos e as planícies de areia de Michel?

Falamos bastante sobre qual é o nosso dever, e como poderíamos chegar a algo de bom, e chegamos à conclusão que nosso objetivo em primeiro lugar deve ser o de achar um lugar determinado, e uma profissão à qual possamos nos dedicar integralmente.

E acredito que estávamos igualmente de acordo de que o necessário é sobretudo ter em vista o objetivo final, e que uma vitória, após toda uma vida de trabalho e de esforços, vale mais que uma vitória obtida mais cedo.

Aquele que vive sinceramente e encontra aflições verdadeiras e desilusões, e que jamais se deixa abater por elas, vale mais que os que sempre vão de vento em popa, e que conheceriam uma prosperidade apenas relativa. Pois, em quem constatamos da maneira mais visível um valor superior, senão naqueles a quem se aplicam as palavras: “Lavradores,
vossa vida é triste, lavradores, vós sofreis na vida, lavradores, vós sois bem-aventurados”, senão naqueles que carregam os estigmas de “toda uma vida de luta e de trabalho suportada sem jamais se curvar”? É bom se esforçar em assemelhar-se a eles.

Avançamos portanto em nossa estrada indefessi favente Deo. No que me diz respeito, devo tornar-me um bom pregador que tenha algo de bom a dizer e que possa ser útil no mundo, e talvez fosse melhor eu conhecer em tempo relativamente longo de preparação, e estar solidamente confirmado numa firme convicção, antes de ser chamado a falar aos outros... A partir do momento em que nos esforcemos em viver sinceramente, tudo irá bem, mesmo que tenhamos inevitavelmente que passar por aflições sinceras e verdadeiras desilusões; cometeremos provavelmente também pesados erros e cumpriremos más ações, mas é verdade que é preferível ter o espírito ardente, por mais que tenhamos que cometer mais erros, do que ser mesquinho e demasiado prudente. É bom amar tanto quanto possamos, pois nisso consiste a verdadeira força, e aquele que ama muito realiza grandes coisas e é capaz, e o que se faz por amor está bem feito. Quando ficamos admirados com um ou outro livro, por exemplo, tomado ao acaso: A Andorinha, A Calhandra, O Rouxinol, As Aspirações do Outono, Daqui Eu Vejo Uma Senhora, Eu Amava Esta Pequena Cidade Singular; de Michelet, é porque estes livros foram escritos de coração, na simplicidade e na pobreza de espírito. Se só pudéssemos dizer umas poucas palavras, mas que tivessem um sentido, seria melhor que pronunciar muitas que não fossem mais que sons vazios, e que poderiam ser pronunciadas com tanto mais facilidade, quanto menos utilidade tivessem.

Se continuarmos a amar sinceramente o que na verdade é digno de amor, e não desperdiçarmos nosso amor em coisas insignificantes, nulas e insípidas, obteremos pouco a pouco mais luz e nos tornaremos mais fortes.

Quanto antes procurarmos nos qualificar num certo ramo de atividade e numa certa profissão, e adotarmos uma maneira de pensar e de agir relativamente independente, e quanto mais nos ativermos a regras fixas, mais firme se tornará o caráter, sem que para isto tenhamos de nos tornar limitados.

E é sensato fazer estas coisas, porque a vida é curta e o tempo passa depressa; se nos aperfeiçoamos numa única coisa e a compreendemos bem, alcançamos além disto a compreensão e o conhecimento de muitas outras coisas.

Às vezes é bom ir ao fundo e freqüentar os homens, e às vezes somos até obrigados e chamados a isto, mas aquele que prefere permanecer só e tranqüilo em sua obra, e não quer ter mais que uns poucos amigos, é quem circula com maior segurança entre os homens e no mundo. È preciso não se fiar jamais no fato de viver sem dificuldades ou sem preocupações ou obstáculos de qualquer natureza, mas não se deve procurar ter uma vida muito fácil. E mesmo nos ambientes cultos e nas melhores sociedades e circunstâncias mais favoráveis, é preciso conservar algo do caráter original de um Robinson Crusoé ou de um homem da natureza, jamais deixar extinguir-se a chama interior, e sim cultivá-la. E aquele que continua a guardar a pobreza e que a preza, possui um grande tesouro e ouvirá sempre com clareza a voz de sua consciência; aquele que escuta e segue esta voz interior, que é o melhor dom de Deus, acabará por encontrar nela um amigo e jamais estará só...

Que seja este o nosso destino, meu rapaz, que teu caminho seja próspero, e que Deus esteja contigo em todas as coisas e te faça triunfar, é o que te desejo com um cordial aperto de mão em tua partida.

Teu irmão que te ama,

Vincent
Vincent Van Gogh – Cartas a Théo.

26 agosto 2005

A RECEITA DE MORRER COM GLÓRIA, BANDEIRA SABIA

A MORTE ABSOLUTA

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “quem foi?...”
Morrer mais completamente ainda,
- sem deixar sequer esse nome.

BANDEIRA, Manuel – Estrela da Vida Inteira – Poesias Reunidas.

16 agosto 2005

UMA ANÁLISE DE MISSA DO GALO

PARA OS VESTIBULANDOS QUE ESTÃO SE PREPARANDO PARA A PUC MINAS, NÃO DEIXEM DE LER ESTE MAGNIFICO TEXTO DO SARAPALHA UMA PESSOA SIMPÁTICA, UMA ANÁLISE DO CONTO - MISSA DO GALO - DE MACHADO DE ASSIS.

23 julho 2005

CARTAS DE MONTEIRO LOBATO A GODOFREDO RANGEL

Areias
'Não aprende, senhor, na fantasia
Sonhando, imaginando ou estudando;
Senão vendo, tratando e pelejando.'

Você que lá leu o Camões inteiro diga lá se há nele coisa melhor que esta – mais sabia, mais profunda, mais “pedagogia moderna”. Reduz tudo ao ver, fazer e insistir. Ao ler no livro da vida, em vez de nos de papel. Ao ver com os nossos olhos, em vez de com os olhos dos outros. Ao pensar com a nossa cabeça, em vez de pensar plagiariamente.

E parece que Camões escreveu esses três versos para nós dois, Rangel. Nosso mal é que já apuramos o nosso instrumento de expressão, já sabemos jogar um período para o ar e vê-lo, qual um gato, cair sobre os quatro pés. Pegamos toda a técnica do escrever e educamos o nosso senso de observação – mas vivemos embolorados dentro de caixa. Esta Areias é uma caixa e essa tua comarca é outra. Nossas cartas são como o rabinho de rato que Hansel mostrava para a velha feiticeira. Somos a velha feiticeira um do outro. Você estira o rabinho de rato epistolar para que eu veja como está gordo e forte no estilo; eu faço o mesmo. Mas que assuntos que temas, podem existir dentro de caixas?

Estamos como içás que derrubam as asas e afundam no buraquinho. O destino me deu este buraquinho de Areias e a você deu o de Machado. E invejamos Loti, o homem dos mares e do Japão. E Kipling, o homem todo Índias, todos jungles, todo Himalaias, todo feras. A única fera daqui é um pobre facadista barato. “Fulano é uma fera!” diz o Julinho. E a tua fera na vida, Rangel, o teu Mugger do Mugger Ghaut, é o chapadissimo Fernandes...

Somos uns pelicanos, Rangel. Vivemos a arrancar penas, carne e coisa de nós mesmos para que não morram os nossos pobres filhinhos literários. Os artistas subjetivos que só tiram de si em vez de tirar do mundo que os rodeia, ficam introspectivos em excesso e acabam satisfazendo a um público muito restrito: a si mesmos. Mas os artistas objetivos, os Kiplings, sugestionam e fazem estremecer de emoção grandes platéias – e o aplauso da platéia é o feijão com arroz de todos os artistas.

Casados, sem fortuna, com a coleira e a corrente do “ganhar a vida” pressa ao pescoço e metidos na caixa de Hansel e Grettel, de que modo atendermos ao mandamento de Camões, do “vendo, tratando, pelejando?”

Lobato
Monteiro Lobato - A Barca de Gleyre

20 julho 2005

CRÍTICAS LITERÁRIAS ARRASADORAS

Minha Formação – Joaquim Nabuco, por Darcy Ribeiro

“Quincas, O Belo – publica minha formação. Autobiografia clássica e chata, de um alienado. Senão, leia: ‘o sentimento em nós é brasileiro; a imaginação, européia. As paisagens todas de Novo Mundo, a floresta amazônica ou os pampas argentinos não valem para mim um trecho da Via Appia, uma volta da estrada de Salermo a Amalfi, um pedaço do cais do Sena à sombra do velho Louvre.’ Vangloriava-se de pensar em francês. Dói é lembrar que esse alienado era, talvez, o mais brilhante intelectual brasileiro de sua geração.” (Aos Trancos e Barrancos – como o Brasil deu no que deu)

Realmente, para qualquer leitor brasileiro desse livro, entrar em contato com as opiniões de Nabuco, em relação ao Brasil, faz estremecer até os ossos de nosso corpo. No entanto, como analisado pelo historiador Caio Prado Júnior, a maioria dos "brasileiros" vivem aqui para expropriar a riqueza do país e viver com os frutos dela além mar. A elite já mais se importou com o desenvolvimento do nosso desgraçado país. Expropriar, sim! E como.

09 julho 2005

PEROLAS COLHIDAS

“O átomo é o último refúgio em que o ser, reduzido aos seus elementos primários, prosseguirá numa espécie de imortalidade surda e cega, de morte imortal, que, tanto para Lucrécio quanto para Epicuro configura a única felicidade possível.

Problemas dos tempos modernos: subtrair o homem ao destino equivale a entregá-lo ao acaso.

Enquanto aos olhos de todos a humanidade levava na terra uma vida abjeta, esmagada sob o peso de uma religião cujo rosto se mostrava do alto das regiões celestiais, ameaçando os mortais com seu aspecto horrível, o primeiro, um grego, um homem, ousou levantar contra ela os seus olhos mortais, e contra ela insurgir-se... E assim a religião foi derrubada e pisoteada, e, quanto a nós, a vitória nos eleva aos céus.”
(Lucrécio, citado por Albert Camus em - O homem Revoltado)

16 junho 2005

CARTAS DE CLARICE

Belo Horizonte, 13 de julho de 1941

Hellô, bem

Está tudo direito, agora. Antes de partir falei com aquela pessoa por causa de quem eu me encontrei com V. de noite. Não aludi à carta principal e só falei das outras que vieram com belíssimas flores, morangos e outras coisas.

Houve um momento em que me disse: S está tonto porque V. vai embora. Menti: “certamente entra aí um pouco de álcool. E, nesse caso, eu sempre desculpo”. Não olhei para ele, não quis ver a reação. Voltei para casa triste com a meia perturbação que eu notara. Mas eu me tinha prometido ser outra, não é? Fiquei defronte do espelho e fiz uma cara belíssima: uma mistura de Nicolau Couro de Cobra com a tua Amélia (Vi tua Amélia no trem; e para o meu desapontamento... ela me sorriu amavelmente. Quem sabe? Se você também lhe tivesse dado uma oportunidade...)

Eu pretendia chorar na viagem, porque fico sempre com saudade de mim. Mas felizmente sou um bom animal sadio e dormi muito bem, obrigada. “Deus” me chama a si, quando dele preciso.

Quanto a teu fantasma, procuro-o inutilmente pela cidade. As mulheres daqui são quase todas morenas, baixinhas, de cabelo liso e ar morno. Aliás, quase que só há homens na rua. Elas, parece, se recolhem em casa e cumprem seu dever, dando ao mundo uma dúzia de filhos por ano. As pessoas daqui me olham como se eu tivesse vindo direto do Jardim Zoológico. Concordo inteiramente. Para não chamar atenção, estou usando cachinhos na testa e uma voz doce como nem Julieta conheceu.

Que mais? Eu tinha vontade de escrever outras coisas. Mas você diria: ela está querendo ser “genial”.

Encontrei uma turma de colegas de Faculdade em excursão universitária. Meu exílio se tornará mais suave, espero. Sabe Lúcio, toda a efervescência que eu causei só veio me dar uma vontade enorme de provar a mim e aos outros que eu sou mais do que uma mulher. Eu sei que você não crê. Mas eu também não acreditava, julgando o que tenho feito até hoje. É que eu não sou senão um estado potencial, sentindo que há em mim água fresca, mas sem descobrir onde é a sua fonte.

O.K. Basta de tolices. Tudo isso é muito engraçado. Só que eu não esperava rir da vida. Como boa eslava eu era uma jovem séria, disposta a chorar pela humanidade... (Estou rindo.) Um grande abraço da
Clarice

P.S. – Hotel Imperador. Pça. Rio Branco, 744-748 quarto n.° 302 – Belo Horizonte

P.S. – Esta carta você não precisa “rasgar”...

Carta escrita a Lúcio Cardoso
CORRESPONDÊNCIAS CLARICE LISPECTOR –Organização de Tereza Monteiro

12 junho 2005

OS CAMINHOS DO APRENDER A VIVER

Uma das características do ser humano é a sua capacidade de fazer projeções de atitudes que venham a tomar. No entanto, a aprendizagem da vida se dá por comportamentos vividos, experimentados. Uma boa metáfora sobre esta aprendizagem é a frase de um filosofo: “a coruja de Minerva só levanta vôo ao entardecer.”

Não há dúvida, que a inteligência humana colabora com a dura tarefa de viver. Quando se levanta hipóteses possíveis para um comportamento a ser praticado, nos é permitido com isso fazer escolhas que consideramos, logicamente, mais acertadas naquele momento. Evidente, que está capacidade de projeção se torna restrita, a medida que ela não leva em conta as diversas variáveis da experiência humana, quando em contato com o ambiente em que foi praticado. Porém, é neste momento que se apresenta uma outra qualidade do homem: a flexibilidade. Quando ele vê que a escolha feita por ele, não foi a melhor, quase que instantaneamente ao ato praticado, faz ajustes necessários para uma melhor satisfação dos seus anseios. Logo, mesmo que de maneira precária, a projeção é uma aliada no aprendizado do viver, quando aliada a experiência.

No entanto, para aprender a viver, não existe melhor maneira do que se lançar na vida. É mergulhar e seguir o seu curso. Por mais que especulamos sobre a vida, nunca que a especulação nos permitirá saber, quando o rio da vida passará por um terreno acidentado ou por um precipício e neste caso a queda é inevitável, mas o seu curso, para muitos, costuma ser longo, passando por planícies, vales, se encontrando com outros rios até chegar ao oceano, destino de todos os rios. Só que é com a experiência adquirida neste percurso, é que se aprende a viver.
Portanto, a vida não é para ser pensada. O pensamento mata a vida. Ela deve ser saboreada, como se saboreia uma comida, nem sempre ela agradará o nosso paladar. Mas, paciência, aprender a viver é aprender que a vida tem diversos sabores, a maior parte dela é mesmo azeda e amarga. É possível sonhar que ela pode ser doce, mas é um desejo, muitas vezes abortado pelas circunstâncias da existência. Viver dá trabalho, nos desgasta e nos faz sofrer.

10 junho 2005

"UM PARADOXO ADORÁVEL E DESALENTADOR"

“(...) no coração de toda realidade existe uma pergunta, e não uma resposta. Quando examinamos os recessos mais profundos da matéria ou a fronteira mais remota do universo, vemos, finalmente, o nosso próprio rosto perplexo nos devolvendo o olhar.”
JOHN HORGAN, AUTOR DO LIVRO: O FIM DA CIÊNCIA – EM REVISTA USP N.° 59 – ARTIGO: FRONTEIRAS E DESAFIOS DO CONHECIMENTO - PÁG. 208-209

21 maio 2005

COMO VIVE E MORRE UM PASSARINHO – JOHANN SEBASTIAN BACH - PARTE I

Ali permanecia ele, um velho baixo e corpulento, vestindo calças e sapatos afivelados, usando a enorme peruca cinzenta que ela lhe havia dado em um natal, sorrindo alegremente para ela, com esse sorriso vago dos cegos, quando ela disse: - Sim, meu João está certo – tentando controlar o tremor de seus lábios.

Normalmente ela chamava-o de Johann Sebastian, mas pensava nele como “meu Johann”, e às vezes escapava... – Está certo – repetiu ela com um aceno trêmulo de sua cabeça coberta por uma touca. – Vá e toque no órgão. Será bom para você.

Era loucura, ela o sabia, deixá-lo ir tocar o órgão a esta hora da noite. Isto faria com que toda a escola acordasse, e que Herr Weinlick, o censor, descesse e este certamente mandaria um relatório para as Suas Majestades do conselho municipal, e estas diriam que o seu Johann ficara maluco tanto quanto cego e que elas não poderiam conservar tal professor num coral de uma escola municipal, e o despediriam. E para onde iriam eles, agora que o médico lhes havia levado todas as economias? Bom e doce Jesus, o que lhes aconteceria com ele cego e ela demasiado velha para encontrar trabalho, com Gottfried doente da cabeça, o inverno ainda não acabado e Leipzig ainda cheia de neve?

O pânico dilatou-lhe os olhos azuis e murchos no pergaminho miúdo que era sua face toda enrugada; mesmo assim ela continuava a cuidar dele, que tremia da cabeça aos pés, acenando teimosamente. Ela não sabia o que lhes aconteceria, mas não podia suportar mais aquilo, observando-o sentado ao pé do fogo, com suas mãos enormes e magras sobre os joelhos, olhando para as chamas que não podia ver, contando as horas da noite pelas rondas do guarda-noturno. Ela sabia que ele temia o que aconteceria pela manhã e que desejava orar e pedir a Deus que lhe desse forças, e compor música era seu método de orar. E por isso, mesmo que Sua Majestade, o prefeito em pessoa, os mandasse para a cadeia, ela deixaria que ele tocasse o órgão esta noite e dar-lhe-ia esta última alegria.

- Sim, meu Johann, vá e toque quanto quiser.

Ela acentuou as últimas palavras com a bravura incerta de um pobre que desafia o inevitável.

- Apenas não toque muito alto – pediu ela docemente, achegando-se a ele. E então, numa contradição desatenta, disse:

- E não demore muito.

- Não o farei.

Seus lábios continuaram movendo-se, mas nenhum som saía dos mesmos. Ele apenas aconchegou-a ao seu peito com se quisesse que ela ouvisse seu agradecimento diretamente pela batidas de seu coração.

A porta do quarto abriu-se e Gottfried entrou.
Com uma dor cruciante e repentina ela reparou que sua cabeleira ruiva estava despenteada e que ele havia esquecido de calçar uma das meias. Este quadro reabriu-lhe uma ferida no peito, por um momento esquecida. Ele fazia essas coisas, sabia ela, porque estava doente da cabeça e o médico havia dito que ele nunca sararia, apesar de ele ser um rapaz alto e simpático e de às vezes sentar-se ao clavicórdio e inventar músicas tão belas que mesmo o seu Johann, que era muito severo no que se referia à musica, ouvia com lágrimas nos olhos.

- Papá, posso ir também? – perguntou o idiota, tão excitado como uma criança. – Tomarei conta dos foles.

Johann Sebastian Bach consentiu.

- Sim, meu filho – disse ele gentilmente. – Oraremos juntos.

Da porta, Anna Magdalena observou-os enquanto avançavam incertamente pelo corredor mal iluminado abaixo, o cego apoiando-se no braço do filho. Então ela fechou a porta e permaneceu sem se mover, com o rosto escondido nas mãos. Finalmente, agora ela podia chorar e somente isso era o que ela podia fazer. Não perguntava mais e nem tentava compreender por que Deus lhes enviava tanto sofrimento. Não eram eles boas pessoas? Johann não havia pedido a vista a Seu serviço, compondo música à luz de velas glorificando Seu nome e cantando Sua glória? Todas aquelas cantatas, aqueles motetes, aquela colossal Missa para a qual ela havia riscado os pentagramas e aquela Paixão, que era a obra que ele mais amava, haviam sido todas escritas par Ele. Será que Ele não as ouvira?

Ela retirou as mãos do rosto e apurou o ouvido, escutando. Ele havia começado a tocar e a composição era a Paixão. Ela sabia que ela tocaria aquilo porque esta era a historia de Nosso Salvador Jesus e de como Ele havia sido espancado, de como cuspiram n’Ele, de com Lhe ataram uma coroa de espinhos na cabeça e fizeram com que Ele carregasse Sua cruz ao Calvário, onde eram crucificados os assassinos, e Ele, o próprio Filho de Deus, houvera suportado tudo isso sem uma palavra sequer... E agora, o seu Johann tocava aquela musica que havia escrito sobre aquelas coisas terríveis, para que pela manhã pudesse se lembrar do que Jesus havia sofrido por ele e então, ele também tentaria igualar-se a Ele...

Ela ouviu um rumor de passos ligeiros do lado de fora e virou-se para a porta. Sim, era Herr Weinlick... e tão furioso vinha que gaguejava consigo mesmo, e com tal pressa (mais corria do que andava), nem havia abotoado os sapatos.

- Que houve com ele? Gritou ele de longe. – Será que não sabe que já passa da meia-noite?... Terá ficado louco?... E quem lhe deu autorização de tocar no órgão grande? Apenas o organista tem o direito de toca-lo e ele é apenas professor do coro...

“É melhor deixa-lo falar por um pouco”, pensou ela, observando o censor aproximou-se, “deixemo-lo cansar-se um pouco...” Ela havia aprendido muito, vivendo todos aqueles anos com um homem. No velhos tempos, o seu Johann ficava às vezes tão furioso que atirava a cabeleira através da sal e a única coisa a fazer era ficar quieta e deixa-lo arengar e após algum tempo ele se acalmava.

- Um professor do coral, ouviu?, isso é tudo que ele é.

Herr Weinlick estava agora a apenas alguns passos dela e ofegava pesadamente.

- Enviarei um relatório e...

Faltou-lhe o ar e ele teve que parar.

- Entre, Herr Weinlick, e sente-se – disse ela suavemente.

- Não vim para sentar-me – gaguejou ele, acompanhado-a para dentro. – Vim para dizer-lhe...

Calmamente ela fechou a porta atrás dele. A musica já não soava tão alto.

- Sente-se nesta cadeira – disse ela com a tranqüila autoridade de uma senhora em sua própria casa. – E descanse um pouco.

Ela sentou-se perto dele à enorme mesa de jantar. Ele não era realmente um homem mesquinho, pensou ela, olhando-o. Apenas pobre e amedrontado. Igual a ela, igual ao seu Johann, igual a todos que não tinham nem um centavo seu. Era o medo que fazia com que as pessoas se tornassem cruéis...

- O senhor não deveria andar correndo por aí numa noite como esta sem um sobretudo.

- Não se incomode com isso – resmungou ele, reavendo sua cólera juntamente com o fôlego.

- Mas o senhor ficará doente. Olhe para si, todo esbaforido e perspirando...

- Estou muito bem. Apenas aviso-a...

Ela já estava se levantando.

- Vou lhe arranjar um pouco de sopa quente.

- Não quero sopa nenhuma – interrompeu ele, vendo-a debruçar-se sobre a terrina que jazia em cima do fogão. – Vim apenas para...

E o que fará o senhor quando ficar doente? – interrompeu ela, enquanto despejava calmamente sopa em um prato. – Terá que permanecer na cama e não poderá vigiar mais os garotos, e talvez o reitor escreva para o conselho dizendo que terá de arranjar um novo censor...

Ela voltou par a mesa e colocou o prato de sopa na frente dele.

- Coma isso, Far-lhe-á bem.

Ruidosamente ele engoliu algumas colheradas.

- Digo-lhe que desta vez ele foi muito longe e eu serei obrigado a...

- Coma – disse ela com um tom de finalidade.

Durante um momento ele comeu em silêncio, apressadamente, sem ousar parar. Ela debruçou-se em sua direção.

- Não foi culpa dele – disse ela apontando para si mesma. – Eu disse-lhe que fosse tocar.

- A senhora?

Ele estava mais surpreso do que zangado.

- Por que fez isso?

- Ele precisava disso. Sabe – agora ela falava como se ele fosse um amigo – o medido virá pela manhã.

- Para a operação?

A agressividade havia decaído nele. Instintivamente ele abaixou a voz.

- A que horas?

- Às sete. Mas seus auxiliares chegarão primeiro... – sua voz estrangulou-se num soluço – para prepara-lo.

Durante um instante o censor não falou. Ele já havia presenciado os horrores de uma operação cirúrgica, e o simples relembrar fazia-o estremecer.

- Sinto muito, - disse ele, colocando a mão sobre as dela – creia-me.

Ele forçou os ouvidos e percebeu que a musica havia parado.

- Devo ir – disse, levantando-se – e fazer com que os rapazes voltem para a cama. – Ao chegar à porta virou-se. – A senhora tem sorte de que o reitor durma na ala traseira. Seja como for ele é um pouco surdo.

- Então o senhor não escreverá para o conselho? – perguntou ela docemente.

- Ele sacudiu a cabeça.

- Mas nunca mais o deixe fazer isso.

- Ele não o fará – disse ela, mas estas palavras não o alcançaram, pois que ele já corria pelo corredor abaixo na direção do dormitório dos rapazes.

Durante um momento ela permaneceu sentada à mesa, olhando o vácuo à sua frente. Ele havia cumprido sua promessa, não havia tocado muito tempo... tinha voltado logo.

Levantou-se e esperou no umbral da porta. Logo os viu aproximarem-se, andando lentamente, e correu para encontra-los

- Obrigado, Lena – disse ele suavemente.

O medo havia desaparecido do rosto dele. Havia orado e agora estava pronto.

ALÉM DO DESEJO – PRÓLOGO – PIERRE LA MURE

01 maio 2005

25 abril 2005

LIVROS DO VESTIBULAR 2006 DA UFMG

ANÁLISE LITERÁRIA DOS LIVROS DO VESTIBULAR 2006 DA UFMG
MELHOR IMPOSSÍVEL
ACOMPANHEM:

17 abril 2005

HÖLDERLIN: UMA ALMA DESPEDAÇADA

Filho de pastor protestante, quis seguir a vocação paterna. Em 1780 estudou teologia na Universidade de Tubingue, com colegas que se chamavam Hegel, Schelling. Deixou de crer. Conhecia Rousseau, Goethe, Schiller e o romantismo embriagava-o. Gostava de natureza misteriosa, da lúcida Grécia. Ama-as simultaneamente e sonha em unir suas belezas numa obra alemã. Era pobre e tinha que levar a dura vida do poeta necessitado. Professor, suportou o aborrecimento das casas ricas, em quase todas desprezado e em uma, muito querido: satisfação logo seguida pela desilusão. Volta à vila natal, onde as pessoas e o ar são doces. Trabalha, escreve todo o tempo de que dispõe, mas pesa-lhe viver à custa dos seus, e afasta-se. Manda imprimir alguns versos, e o público não gosta desses belos poemas, onde o gênio de um desconhecido faz os deuses do Olimpo passar pelas sombras das florestas renanas. O infeliz Hölderlin sonha criações mais vastas, mas retém o sonho: a Alemanha é um mundo, e a Grécia um outro mundo. È preciso a força de um Goethe para as unir e fixar as palavras eternas de Fausto, raptor de Helena. Hölderlin escreveu fragmentos de um poema em prosa. Seu herói é um jovem grego que se lamenta da ruína de sua raça, e, frágil precursor de Zarathustra, clama pela renascença de uma valorosa humanidade. Compôs três cenas de uma tragédia cujo herói é Empédocles, tirano de Agrigente, poeta, filósofo, grande inspirador das multidões, grego isolado, por sua própria grandeza, entre os gregos, mágico que, possuindo toda a natureza, cansa-se das satisfações que a vida pode oferecer e se retira para o cimo do Etna, deixando a família, seus amigos, seu povo que o quer, e, um dia, ao nascer da noite, atira-se na cratera. É obra de fôlego: Hölderlin abandona-a. A tristeza o enfraquece e exalta. Quer deixar a Alemanha, onde tanto tem sofrido, e libertar os seus de sua vida incômoda. Propõem-lhe um emprego em bordeis, na França, e ele desaparece. Seis meses mais tarde, volta ao lar, vestido de farrapos, queimado pelo sol. Interrogam-no, mas ele nada diz. Procuram informar-se e, após grande trabalho, vêm a saber que ele atravessou a França a pé, sob o sol de agosto. Sua inteligência está perdida. Ele acaba-se, abisma-se num torpor que dura quarenta anos. Morre em 1843.

08 abril 2005

MISSIVAS ENTRE NIETZSCHE E WAGNER

Vou publicar sempre que possível, correpondências entre pessoas que marcaram o pensamento ocidental. As cartas revelam muita coisa, sobre a pessoa e as suas idéias. Vejam por exemplo, estas duas correspondências:
Querido amigo,
Quanto a mim, grito: "É isso mesmo!" Você atingiu a verdade e tocou o ponto justo com um agudo dardo. Espero com admiração a continuação do seu trabalho e das lutas que você há de travar com o dogmatismo vulgar. No entanto, você me causa cuidados e desejo, de todo o coração, que não quebre o pescoço. Quero, portanto, aconselhá-lo a não expor seus audaciosos pontos de vista, dificilmente aceitáveis, em pequenas brochuras que pouco ajudam. Sinto que você está profundamente penetrado por suas idéias; é preciso reuni-las para nos dar um livro volumoso, de mais vasta ação. Então, você encontrará e dirá a palavra justa sobre os divinos erros de Sócrates e de Platão, esses criadores, tão maravilhosos, que nós mesmos que discordamos deles, ainda os devemos adorar. Oh, meu amigo! As palavras se elevam como hinos quando consideramos a incompreensível harmonia dessas essências estranhas ao nosso mundo! E que orgulho nos anima, que esperança, quando examinando-nos a nós mesmos, sentimos forte e claramente que podemos e devemos realizar qualquer obra para eles mesmos inacessível!
Até breve,
Nietzsche
********************
Caro amigo,
Como é bom a gente poder escrever tais cartas! Não existe ninguém, hoje, com quem eu me possa entender tão bem como com você, excetuada uma única (*). Deus sabe que seria de mim sem isso! Mas ele permitirá que nenhum projeto melhor me tente e que possa dispor de muito tempo, para que me abandone ao prazer de lutar com você contra o "socratismo"; porque, para esclarecer um tal problema devo renunciar a toda criação. É preciso que dividamos o trabalho. Você pode muito, para mim. Pode se encarregar de metade do trabalho que o destino me designou. E, fazendo isso, talvez cumpra todo o seu destino. Eu sempre me sai mal de todas as experiências filológicas. Você também se saiu mal das experiências musicais – é bem isso. Como músico, você se tornaria, pouco a pouco o mesmo que eu me tornaria se me obstinasse em realizar trabalhos de filologia. Mas a filologia me ficou no sangue; como musicista, ela é que me dirige. Você, que é filólogo, continuando a sê-lo deixe-se dirigir pela música. Dou um sentido muito sério ao que estou dizendo. Soube por você, como são baixas as preocupações a que se deve restringir hoje um filólogo de profissão – e você soube, por mim, em que inominável chiqueiro tem que se agitar hoje um verdadeiro e "absoluto" musicista. Exponha o que deve ser a filologia e ajude-me a preparar esta grande "Renascença" na qual Platão abraçará Homero e Homero, penetrado pelas idéias de Platão há de ser, pela primeira vez, o sublime Homero...
Wagner
(*) Senhora Cosima Wagner
Correspondências entre Nietzsche e Wagner em – A vida de Frederico Nietzsche – Daniel Halévy. Pág. 51-51

02 abril 2005

PEDAÇO DE RETRATO

Não gosto de falar em nada sobre mim, mas vou abrir uma exceção, para dizer um pouco, sobre coisas de que eu gosto. Ou seja, dos meus quatro prazeres terrenos.
A primeira é conversar com o Éder, ou melhor, de ouvi-lo falar, pois ele é completo, de pensamento muito refinado e peculiar, com quem se pode conversar sobre tudo, mesmo de coisas banais. No mundo das idéias, ele é aquele ô Antonico, que faz a massa comer do biscoito fino que fabrica.
A segunda é ler. A leitura é o meu combustível. Considero-a um instrumento capaz de jogar luz na escuridão de nossas vidas e é um alento para a solidão de nosso tempo.
A terceira é o meu cigarro, que hoje venho tragando, através principalmente da televisão, em função de quase não ter tempo para nada: ouvir o que as pessoas estão pensando sobre um monte de coisas. É claro que não ouço qualquer um. Adoro ver entrevistas, palestras, debates, documentários, participar de congressos. Isto é tão sério, que hoje vendo o programa Starte, em que falava de espaços construidos para debater idéias, como a Casa do Saber e a Casa das Rosas, esta criada com o acervo da biblioteca do poeta Haroldo de Campos, em São Paulo, um professor disse que em Paris, existe um espaço em que oferecem 365 palestras no ano, ou seja, uma para cada dia do ano, inclusive no natal. Com certeza para mim, “isto é o paraíso. Quando morrer, quero ir para lá”.
A quarta é Minas, tenho uma verdadeira obsessão por Minas Gerais, acho-a linda, suas montanhas são o meu limite. Não me interessa em quase nada, o que está além delas. Minas é o meu país. Desejo conhecer cada centímetro, dessa minha nação.

20 março 2005

CONVERSANDO COM DARCY

SABEDORIA

Vejo por aí muita criança perguntona e não vejo ninguém com paciência para explicar as coisas a elas. Dá pena. Sobretudo, das menininhas de voz esganiçada, perguntando: Por quê? Para quê? Por isso sou professor . Só peço que não me tratem de tio. Não sou tio de ninguém, não. Sou é escritor.

Vou contar para vocês, tintim por tintim, tudo que sei. Não digo que sei tudo, nem digo que o que sei seja sempre verdade. Quem sou eu? Vou dizer aqui, por escrito, o que acho das coisas desse mundo, com a sabedoria que vim juntando a vida inteira. Não sou velho, mais sou meio erado, antigo.

Sempre vivi de olho aceso, assuntando, querendo entender. Assim é que aprendi: observando. Mais, ainda, aprendi de oitiva, escutando sabedorias alheias e conferindo. Li, também, muito almanaque e revista e fui guardando na cabeça o que prestava. Estudo mesmo, estudei muito demais, mas aprendi pouco. Tome o que digo aqui como minha opinião, não mais. Se puder desmentir, desminta logo. Respeitarei sua opinião. Se não for bestagem rematada, acato. Nada contra.

Conheci muita gente considerada sábia e quis aprender com elas. Não deu certo. Os sábios são muito minuciosos. Cada qual sabe lá sua coisinha e ignora todo o resto. E o resto é o mundo inteiro. Eles são variadíssimos.

Há sábios para toda sorte de coisas. Sábios para bichos – os zoólogos; sábios para plantas – os botânicos; sábios para micróbios – os microbiologistas; sábios para gentes – os etnólogos; sábios para vinhos – os enólogos; até sábios para capins existem – eu não sei é como eles se chamam.

Também há sábios híbridos, que misturam sabedorias para ver se entendem melhor alguma coisa, como os físico-químicos, os químico-físicos, os biofísicos, os geofísicos e outros. Esses doutores formados, que falam com toda a empáfia da sabedoria deles, não são sábios coisa nenhuma. Quase todos são uns ignorantes, como a gente mesmo, só sabem coisas lá da cuca deles, com que ganham a vida.

Há muita gente especializada que, sem ser sábio, sabe alguma coisinha. O diabo é que, quanto mais aprofundam no saber do que sabem, mais ignorantes ficam o resto. Os advogados sabem como enrolar as leis para defender criminosos e ladrões, Vez por outra, defendem inocentes, também. Os médicos sabem algumas das doenças, mas ignoram as outras todas. São muito sujeitos à moda. Quando dão de operar amígdalas, arrancam as amígdalas de todo mundo. O mesmo fazem quando a moda é operar apêndice. Agora, acham que todo mundo está loucão e precisa de pílulas tranqüilizantes, ou psico-qualquer-coisa.

Para procurar médico, a gente precisa, primeiro, prestar atenção para ver que doença tem, senão gasta muito dinheiro à-toa. Ir a um otorrinolaringologista com dor nos rins é perda de tempo: eles só sabem de otites, de dor de garganta e de espirro desenfreado. Os ortopedistas encanam perna quebrada direitinho, mas não sabem nada de quem sofre do coração. Os engenheiros também são especializados demais: o que sabe fazer pontes, só faz pontes; o que sabe fazer casas, só faz casa.

Ás vezes, até penso que quem sabe mesmo é o povo, ou as pessoas que não sabem nada. Mas cada um se vira com o pouco que sabe para ganhar a vida. Se todos os sábios do mundo desaparecessem amanhã, não fariam muita falta. Se o povo acabasse, isso sim seria um desastre. Os sábios morreriam de fome e de sede.

Trate de aprender tudo o que puder. Saber demais não ocupa lugar. Ignorância, sim. A sabedoria anda solta por aí, para a gente aprender o que quiser. Ela está menos nos livros que nos fazimentos, por isso se diz que quem sabe, faz, quem não sabe, ensina.

Se o mundo fosse acabar outra vez, num dilúvio, que faria o novo Noé da barca, para salvar a humanidade? Escolha você entre duas soluções. A primeira seria pegar dez sábios de cada profissão, formados em universidades, e levá-los para uma morraria deserta com seus livros e instrumentos de trabalho. A segunda seria catar na feira uns mil feirantes com suas mercadorias e carregar para o mato. Quem salvaria a humanidade?
DARCY RIBEIRO – NOÇÕES DE COISAS – 1995 – PÁG. 09-11